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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Lourenço Filho - (1897-1970) "O verdadeiro papel da escola primária é o de adaptar os futuros cidadãos, material e moralmente, às necessidades sociais presentes e, tanto quanto seja possível, às necessidades vindouras, desde que possam ser previstas com segurança.


Essa integração da criança na sociedade resume toda a função da escola gratuita e obrigatória, e explica, por si só, a necessidade da educação como função pública. Por isso mesmo, o tirocínio escolar não pode ser mais a simples aquisição de fórmulas verbais e pequenas habilidades para serem demonstradas por ocasião dos exames. A escola deve  preparar para a vida real, pela própria vida. A mera repetição convencional de palavras tende a desaparecer, como se viu na nova concepção da ‘escola do trabalho’. Tudo quanto for aceito no programa escolar precisa ser realmente prático, capaz de influir sobre a existência social no sentido do aperfeiçoamento do homem. Ler, escrever e contar são simples meios; as bases da formação do caráter, a sua finalidade permanente e inflexível. Do ponto de vista formal, isso significa a criação, no indivíduo, de hábitos e conhecimentos que influam diretamente no controle de tendências prejudiciais, que não podem ou não devem ser sufocadas de todo pelo automatismo psíquico possível na infância.E como conseqüência, nos grandes meios urbanos, à escola cabe, hoje, iniludivelmente, facilitar a orientação e seleção profissional, pelo estudo das aptidões individuais da criança, conhecimento e esclarecimento do desejo dos pais, tradição e possibilidades da família. Esse aspecto é inteiramente desconhecido em nossas escolas”.
  
  
         Nasceu em 10 de março de 1897, na Vila de Porto Ferreira, SP, e faleceu em 3 de agosto de 1970, no Rio de Janeiro. Completou os estudos primários em Santa Rita do Passa Quatro. Em 1914, formou-se professor normalista. Em 1915, iniciou sua carreira no magistério, como professor primário substituto do Grupo Escolar de Porto Ferreira. Em 1916, passou a residir em São Paulo, onde freqüentou a Escola Normal da Praça da República.
         Em 1918, matriculou-se na Faculdade de Medicina, mas não completou o curso. Em 1919, matriculou-se no curso de Direito, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Em decorrência de sua intensa atividade profissional, somente veio a completar o curso de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1929. Em 1920, foi nomeado professor substituto de Pedagogia e Educação Cívica, na Escola Normal de São Paulo. Em 1921, passou a lecionar Psicologia e Pedagogia, na Escola Normal de Piracicaba. Em 1922, passou a atuar no Estado do Ceará, como Diretor de Instrução Pública. Promoveu uma reforma pioneira no ensino cearense.
         Em 1924, voltou a lecionar em Piracicaba. Entre 1925 e 1930, lecionou Psicologia e Pedagogia na Escola Normal da Praça da República, em São Paulo. Em 1929, foi eleito para a Academia Paulista de Letras. Em 1930, foi designado Diretor-Geral da Instrução Pública do Estado de São Paulo. Promoveu importantes reformas no ensino. Em 1932, foi um dos signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Em 1934, foi eleito Presidente da ABE.
         Em 1935, foi nomeado professor de Psicologia Educacional da Universidade do Distrito Federal.. Em 1937, foi nomeado membro do Conselho Nacional de Educação. Nesse mesmo ano, foi nomeado Diretor-Geral do Departamento Nacional de Educação, do MEC. Em 1938, recebeu do Ministro da Educação a incumbência de implantar o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), que passou a dirigir.
          Em 1941, organizou e secretariou a I Conferência Nacional de Educação. Em 1946, assumiu a cátedra de Psicologia, na Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1947, voltou a ocupar o cargo de Diretor-Geral do Departamento Nacional de Educação. Em 1949, organizou e dirigiu o Seminário Interamericano de Alfabetização e Educação de Adultos, realizado no Rio de Janeiro, sob os auspícios da OEA e da UNESCO. Nessa ocasião, recebeu o título de Maestro de las Américas.
          Em 1951, foi nomeado Presidente da Comissão Executiva do Centro de Formação de Pessoal para Educação Fundamental na América Latina, no México. Também representou o Brasil no Conselho Cultural Interamericano, no mesmo país. Em 1952, foi eleito presidente do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura.
          Aposentou-se em 1957, mas continuou atuando em várias comissões educacionais.


Bibliografia Do Autor

* Aventuras de Pedrinho. Livro III. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1955.
* Brasil, paisagens e costumes. São Paulo: Melhoramentos, 1962, 87 p. Cartilha do povo. São Paulo: Melhoramentos, 1928, 48.
* Curso de psicologia educacional. Faculdade Nac. de Filosofia, mimeo, 1955.
* Educação comparada. São Paulo: Melhoramentos, 1961, 294 p.
* A Escola Nova (resposta ao inquérito de O Estado de S. Paulo, em 1926). São Paulo: Melhoramentos, 1927
* Estatística e educação. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, 1940, 23 p.
* Introdução ao estudo da Escola Nova. São Paulo: Melhoramentos, 1978, 271 p.
* Histórias do tio Damião (Totó, Baianinha, Papagaio real, Tão pequenino, Saci Pererê, O indiozinho, A irmã do indiozinho, A gauchita, A formiguinha, No circo, Maria do Céu, E eu, também). São Paulo, Melhoramentos, primeira publicada em 1942, última em 1951.
* Juazeiro do Padre Cícero. S. Paulo: Melhoramentos, 1959, 217 p., 1ª ed. em 1926.
* A criança na Literatura Brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1948.
* Leituras de Pedrinho e Maria Clara. Livro IV. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1956.
* Organização e administração escolar: Um curso básico. São Paulo: Melhoramentos, 1963, 288 p.
* A pedagogia de Rui Barbosa/1849-1923. São Paulo: Melhoramentos, 1956, 130 p., 1ª edição em 1954.
* Pedrinho. Livro I. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1953.
* Pedrinho e seus amigos. Livro II. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1954.
* Pedrinho e o mundo. Livro V. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1957.
* Psicologia da aprendizagem e instrução militar. Rio de Janeiro: Biblioteca da Defesa Nacional, 1940, 28 p.
* Psicologia educacional. São Paulo: Melhoramentos.
* Psicologia de ontem e de hoje. São Paulo: Melhoramentos.
* A psicologia a serviço da organização. Conferência de Lourenço Filho de 3/8/1942. Rio: Depto. Adm. do Serviço Público, Imprensa Nacional, 1942, 26 p.
* Tendências da educação brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1940, 164 p.
* Testes ABC para verificação da maturidade necessária à aprendizagem da leitura e escrita. São Paulo: Melhoramentos, 1969, 200 p. (inclui material para aplicação dos testes).
* Testes e medidas na educação. Rio: FGV, 1970, 115 p.
* Upa, cavalinho. Cartilha. Série Leitura graduada. S. Paulo: Melhoramentos, 1957.
* Viagem através do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1954.

Principais obras publicadas:

- Juazeiro do Padre Cícero. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1926.
- Introdução ao Estudo da Escola Nova. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1930.
- Testes A,B,C. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1933.
- Tendências da Educação Brasileira. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1940.
- A Pedagogia de Rui Barbosa. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1954.
- Organização e Administração Escolar. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1963.


Lourenço Filho


é um educador brasileiro conhecido sobretudo por sua participação no movimento dos pioneiros da Escola Nova. Foi duramente criticado por ter colaborado com o Estado Novo de Getúlio. todavia, sua contribuição para a educação brasileira mereceria ser melhor estudada. Sua obra nos revela diversas facetas do intelectual educador, extremamente ativo e preocupado com a escola em seu contexto social e nas atividades de sala de aula.

Vida e obra

Manoel Bergström Lourenço Filho, nascido em Porto Ferreira, interior paulista, a 10 de março de 1897, é uma das figuras eminentes da Escola Nova brasileira. Sua formação foi marcada pela influência do pai, o português Manoel Lourenço Filho, comerciante criativo e empreendedor ávido,1 casado com a sueca Ida Christina Bergström Lourenço.

Desde menino, em contato com vasta literatura, tornou-se um leitor compulsivo. Nas suas próprias palavras: lia com "bulimia e indiscriminação" .2

Iniciou a vida escolar na vizinha Santa Rita do Passa Quatro. Prosseguiu em Campinas, depois em Pirassununga e, finalmente, na capital, onde diplomou-se na Escola Normal Secundária, em 1917. Matriculou-se na Faculdade de Medicina para estudar psiquiatria mas abandona após dois anos. Em 1919, ingressa na Faculdade de Direito de São Paulo, vindo a bacharelar-se em 1929, depois de longa trajetória interrompida por várias atividades paralelas que desenvolve, com destaque, no campo educacional.

Sua carreira profissional foi precoce. Pode-se lembrar a premonitória experiência de elaborar um jornal próprio, O Pião, cujo chefe, redator e tipógrafo era ele mesmo, menino de 8 anos ainda. Sua vida evidenciará que esse jornal foi mais do que mero capricho de criança: o "brinquedo" o preparou para exercícios profissionais posteriores. Mais tarde trabalhará no Jornal do Comércio, n’O Estado de S. Paulo e na Revista do Brasil, nesta, ao lado de Monteiro Lobato.

O talento desse educador revelou-se tanto no desempenho discente quanto na atuação docente. Desde o exame de admissão para a Escola Normal Primária de Pirassununga exercitava habilidades docentes ministrando aulas particulares de preparação para os testes admissionais. Também a primeira experiência no ensino público dá-se em sua terra natal, em 1915.

Novo contato com a sala de aula se fará na Escola Normal Primária de São Paulo, na qual leciona diversas disciplinas pedagógicas, em 1920. No ano seguinte é nomeado para a cátedra de Psicologia e Pedagogia da Escola Normal
de Piracicaba. Ali funda a Revista de Educação, que recebe seus primeiros artigos. No final desse mesmo ano, casa-se com Aida de Carvalho, que conhecera em Pirassununga, quando ambos eram normalistas.

É possível detectar nesse momento da vida de Lourenço a fusão harmônica entre o leitor, o professor, o escritor, o pesquisador e o administrador, potenciais que começavam a demandar espaço.

Em 1922, a convite do governo cearense, assume o cargo de Diretor da Instrução Pública e leciona na Escola Normal de Fortaleza. As reformas por ele empreendidas no Ceará repercutem no país e podem ser entendidas como germe dos conhecidos movimentos nacionais de renovação pedagógica das primeiras décadas do século.

De volta ao Estado natal, leciona na Escola Normal de Piracicaba durante o ano de 1924. Em seguida, assume a vaga de Psicologia e Pedagogia da Escola Normal de São Paulo, função que ocupa por seis anos, fervilhantes de pródiga produção, de muitas publicações, inclusive traduções. A influência da Psicologia Experimental é evidente em sua obra, sobretudo nesse momento.

Sua participação política também merece destaque: presente nas Conferências Nacionais de Educação de 1927 e 1928, respectivamente em Curitiba e Belo Horizonte, apresenta suas idéias quanto ao ensino primário e à liberdade dos programas de ensino. Se não autor, é certamente um dos atores mais importantes do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932.

A vasta obra de Lourenço Filho, entretanto, não pode ser vinculada, de modo simplista, apenas à temática do manifesto escolanovista. Mais do que signatário do Manifesto, foi um educador sedento do novo, que bebia nas fontes do novíssimo, das últimas novidades pedagógicas do cenário internacional. Sua preocupação, de fato, voltava-se também para o fazer pedagógico.

A realidade educacional brasileira é terreno carente mas fértil para contribuições. A preocupação com a educação movia Lourenço Filho. Suas experiências, as viagens pelo Brasil e ao exterior, sua ampla cultura lhe possibilitaram escrever em áreas como Geografia e História do Brasil, Psicologia (testes e medidas na educação, maturação humana), Estatística e Sociologia.

No campo da Educação, sua contribuição abrange temas como educação pré-primária, alfabetização infantil e de adultos, ensino secundário, ensino técnico rural, universidade, didática, metodologia de ensino, administração escolar, avaliação educacional, orientação educacional, formação de professores, educação física e literatura infanto-juvenil – textos espalhados por numerosos livros, revistas, jornais, cartilhas, conferências, apresentações e prefácios. Há publicação de alguns de seus escritos em inglês, francês e espanhol.

A formação profissional e os profundos vínculos dessa com sua produção e atuação, conferem a Lourenço Filho o perfil de intelectual educador. Apesar de ter exercido cargos na administração pública federal – como diretor de gabinete de Francisco Campos (1931), como diretor geral do Departamento Nacional de Educação (nomeado por Gustavo Capanema, em 1937) e como diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (1938-46) –, foi sobretudo um professor e um estudioso de assuntos didático-pedagógicos.

Viveu os últimos anos no Rio e, vítima de colapso cardíaco, faleceu em 3 de agosto de 1970, aos 73 anos.



Pensamento do autor e sua importância

A impressão que se tem, à medida que se adentra o universo da produção desse educador é de que ele não se esconde à sombra de nomes como Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira, contemporâneos seus já objeto de inúmeros estudos. Poderíamos até mesmo conjecturar se seu envolvimento com o governo Vargas não constituiu e constitui, de certa forma, pretexto para obscurecimento da sua figura, num patrulhamento ideológico-político despercebido, como se aceitar cargos num governo ditatorial como foi o de Vargas implicasse necessariamente deixar de ter um posicionamento político crítico.

Perguntamo-nos aqui se os serviços que prestou naquele período não constituíram meio para realização, no campo educacional, das reformas que idealizara. Lourenço acreditava que a era getulista fosse realmente de modernização. Ou seja, o governo brasileiro daquele momento lhe pareceu oportuno para reformar a educação.

Também é criticado pelo caráter tecnicista de suas propostas educacionais. Talvez uma investigação aprofundada sobre esse educador pudesse guindá-lo da posição secundária, em que costumeiramente parece ser confinado, para um plano de maior destaque.

De fato, a obra de Lourenço Filho sobre a Escola Nova é emblemática. Em 1926, por exemplo, em resposta ao inquérito acerca do ensino paulista promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo, apresenta com extraordinária clareza e precisão as características do movimento renovador: "A escola tradicional não serve o povo, e não o serve porque está montada para uma concepção social já vencida, senão morta de todo... A cultura, bem ou mal, vinha servindo os indivíduos que se destinavam às carreiras liberais, mas nunca às profissões normais de produção econômica".3

Esta citação vem confirmar o entendimento do autor, naquele momento, da profunda articulação existente entre a escola e a vida social. Assim, uma escola Moderna só seria a "escola do trabalho". Lourenço Filho tinha claro que a elitização e o intelectualismo da educação brasileira não atendiam às necessidades das classes populares, antes as privavam de inserção no esquema produtivo.

Há outros pressupostos escolanovistas no mesmo texto, sobre o papel da escola primária: "O verdadeiro papel da escola primária é o de adaptar os futuros cidadãos, material e moralmente, às necessidades vindouras, desde que estas possam ser previstas com segurança. Essa integração da criança na sociedade resume toda a função da escola gratuita e obrigatória, e explica, por si só, a necessidade da educação como função pública. (...) A escola deve preparar para a vida real, pela própria vida".4

Arrolamos este opúsculo para demonstrar que, antes mesmo da publicação de seu texto mais famoso, Introdução ao estudo da Escola Nova, o pensador já apregoava os ideais "modernos". Esse amor ao novo, como já dissemos, é uma marca do pensamento de Lourenço Filho. Utilizava com competência a produção intelectual estrangeira de seu tempo: E. Durkeim, H. Pièron, E. Claparède, H. Wallon, L. Walther, A. Binet, T. Simon, P. Wil, J. Dewey, W.H. Kilpatrick, D. Pierson, B. Russel, O. Decroly, J. Kershensteiner, M. Montessori.

No cenário intelectual nacional, relacionava-se com Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Monteiro Lobato, Alceu Amoroso Lima, Almeida Jr., Sampaio Dória, Celso Kelly. Não pretendemos, referindo esses interlocutores, rotular Lourenço Filho como erudito, enfatizamos apenas sua preocupação em bem fundamentar suas idéias. Dizia: "...sobre educação e futebol não há ninguém que não se julgue capaz de uma opinião pessoal, pelo que é perigoso opinar sobre o assunto sem ampla justificação do ponto de vista tomado".5

Sobre o valor do livro Introdução ao estudo da Escola Nova: Bases, sistemas e diretrizes da Pedagogia contemporânea, destacamos um comentário de Fernando de Azevedo: "não há obra que o substitua na literatura pedagógica. Lê-de-o, se quiserdes ter uma visão, larga e profunda, da escola nova".6 Lembramos que, na época, as discussões sobre a escola nova se davam em vários países. Lourenço Filho procurou dar caracterização nacional à temática, embora na Introdução ao Estudo da Escola Nova muito pouco fale do Brasil, informando, majoritariamente, sobre o movimento no exterior.

Poderíamos perguntar, a esta altura, qual a concepção de educação que Lourenço defendia. A polêmica distinção entre educação e ensino e o papel que cabe à escola são focos do artigo "Modalidades de Educação Geral".7 Para ele, "ensinar" é a arte de transmitir conhecimentos e técnicas, ou seja, o ensino é o processo de inculcação de noções e idéias. Esse papel coube historicamente à escola. "Educar" é levar em conta um conjunto de modalidades, "...todas aquelas em que uma educação integral, nessa compreensão, possa fazer supor".8 Entender essa sua concepção de educação requer, portanto, elencar inúmeros elementos. Para Lourenço, a educação é eminentemente social, é vida!

Tal definição de educação vincula o papel da escola à história. Ou seja, se novas condições de vida, se novos problemas e conflitos surgem, reflexos ocorrerão no espaço escolar: "O que a educação agora exige é que se compreenda essa mudança das condições da existência. Nem todos os valores se subverteram, mas a técnica de viver que se apresenta às novas gerações é diversa da nossa, em razão dos progressos da ciência, da economia industrial, dos novos poderes que o homem conquistou sobre a natureza, sobre a vida e a morte, sobre o pensamento".9

Não parece ao leitor que essa citação, tomada por si só, poderia ser incorporada a hodiernos discursos? A complexidade das relações entre a escola e a sociedade, se agora é lugar comum, já era apontada pelo autor, o que exemplifica sua aguda visão.

Para que a escola desempenhe uma educação integral, deve oferecer mais do que instrução, a ela cabe integrar os indivíduos. Ainda em suas próprias palavras: "A fim de que a escola, primária ou secundária, possa ter caráter educativo pleno, deverá oferecer condições e oportunidades para que os alunos organizem a sua conduta para a saúde, a família, o trabalho, a pátria, a recreação e a religião. Nestes termos se condensam, realmente, todas as modalidades de possível ação educativa".10

Buscar contato com a obra de Lourenço Filho através de um levantamento bibliográfico, localizar e analisar seus escritos, conhecer as idéias de seus comentaristas e mesmo ir à busca de detalhes de sua vida pessoal foram tarefas da investigação inicial que executamos.

A produção literária de Lourenço, que apresentamos em parte na bibliografia, ao final do verbete, abrange grande número de publicações do autor e sobre ele, constituindo fração do que conseguimos localizar.11 Entre os que escreveram sobre a vida e obra desse importante educador, em estudos, críticas, comentários, homenagens e biografias, há renomados analistas.

Uma viagem de estudo e pesquisa a Porto Ferreira, sua cidade natal, revelou-se bom caminho para obtermos maiores informações sobre a história de vida de Lourenço. Tal visita nos proporcionou acesso a variado material. Assim, constatamos que a figura do educador está presente na memória de muitos membros da comunidade, embora o Museu Histórico e Pedagógico e a Biblioteca Municipal, que originalmente chamavam-se, ambos, Professor Lourenço Filho, tenham, atualmente, outra denominação.12 O museu guarda fotografias, cópias de documentos e exemplares de antigas edições de livros do famoso professor.

Talvez o fato de Lourenço Filho ter deixado a cidade natal ainda muito jovem e ter vivido e conseguido projeção longe dela gere um misto de orgulho e ressentimento no imaginário popular dessa pequena cidade do interior paulista. Isso é percebido nos depoimentos de moradores que cultivam, com certo saudosismo, a história da cidade.

As conclusões que tiramos dessa investigação preliminar são, essencialmente, duas. A primeira é que a vasta produção de Lourenço Filho ainda foi pouco estudada, sobretudo sua contribuição para a educação brasileira. A segunda, vinculada à anterior, é que, melhor conhecendo sua vida e obra, poder-se-ia elevar esse educador a um posto de maior destaque entre os educadores brasileiros. Os autores, pessoalmente, arriscam prever que novos estudos sobre o ilustre filho de Porto Ferreira renovarão o brilho do "Mestre das Américas".13



Fragmento de A Escola Nova,14


"Sobre o papel da escola em geral"

"O verdadeiro papel da escola primária é o de adaptar os futuros cidadãos, material e moralmente, às necessidades sociais presentes e, tanto quanto seja possível, às necessidades vindouras, desde que possam ser previstas com segurança. Essa integração da criança na sociedade resume toda a função da escola gratuita e obrigatória, e explica, por si só, a necessidade da educação como função pública. Por isso mesmo, o tirocínio escolar não pode ser mais a simples aquisição de fórmulas verbais e pequenas habilidades para serem demonstradas por ocasião dos exames. A escola deve preparar para a vida real, pela própria vida. A mera repetição convencional de palavras tende a desaparecer, como se viu na nova concepção da ‘escola do trabalho’. Tudo quanto for aceito no programa escolar precisa ser realmente prático, capaz de influir sobre a existência social no sentido do aperfeiçoamento do homem. Ler, escrever e contar são simples meios; as bases da formação do caráter, a sua finalidade permanente e inflexível. Do ponto de vista formal, isso significa a criação, no indivíduo, de hábitos e conhecimentos que influam diretamente no controle de tendências prejudiciais, que não podem ou não devem ser sufocadas de todo pelo automatismo psíquico possível na infância. E como conseqüência, nos grandes meios urbanos, à escola cabe, hoje, iniludivelmente, facilitar a orientação e seleção profissional, pelo estudo das aptidões individuais da criança, conhecimento e esclarecimento do desejo dos pais, tradição e possibilidades da família. Esse aspecto é inteiramente desconhecido em nossas escolas."





Bibliografia Do autor

 Aventuras de Pedrinho. Livro III. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1955.

Brasil, paisagens e costumes. São Paulo: Melhoramentos, 1962, 87 p. Cartilha do povo. São Paulo: Melhoramentos, 1928, 48 p.

Curso de psicologia educacional. Faculdade Nac. de Filosofia, mimeo, 1955.

Educação comparada. São Paulo: Melhoramentos, 1961, 294 p.

A Escola Nova (resposta ao inquérito de O Estado de S. Paulo, em 1926). São Paulo: Melhoramentos, 1927, 24 p.

Estatística e educação. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, 1940, 23 p.

Introdução ao estudo da Escola Nova. São Paulo: Melhoramentos, 1978, 271 p.

Histórias do tio Damião (Totó, Baianinha, Papagaio real, Tão pequenino, Saci Pererê, O indiozinho, A irmã do indiozinho, A gauchita, A formiguinha, No circo, Maria do Céu, E eu, também). São Paulo, Melhoramentos, primeira publicada em 1942, última em 1951.

Juazeiro do Padre Cícero. S. Paulo: Melhoramentos, 1959, 217 p., 1ª ed. em 1926.

A criança na Literatura Brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1948.

Leituras de Pedrinho e Maria Clara. Livro IV. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1956.

Organização e administração escolar: Um curso básico. São Paulo: Melhoramentos, 1963, 288 p.

A pedagogia de Rui Barbosa/1849-1923. São Paulo: Melhoramentos, 1956, 130 p., 1ª edição em 1954.

Pedrinho. Livro I. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1953.

Pedrinho e seus amigos. Livro II. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1954.

Pedrinho e o mundo. Livro V. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1957.

Psicologia da aprendizagem e instrução militar. Rio de Janeiro: Biblioteca da Defesa Nacional, 1940, 28 p.

Psicologia educacional. São Paulo: Melhoramentos.

Psicologia de ontem e de hoje. São Paulo: Melhoramentos.

A psicologia a serviço da organização. Conferência de Lourenço Filho de 3/8/1942. Rio: Depto. Adm. do Serviço Público, Imprensa Nacional, 1942, 26 p.

Tendências da educação brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1940, 164 p.

Testes ABC para verificação da maturidade necessária à aprendizagem da leitura e escrita. São Paulo: Melhoramentos, 1969, 200 p. (inclui material para aplicação dos testes).

Testes e medidas na educação. Rio: FGV, 1970, 115 p.

Upa, cavalinho. Cartilha. Série Leitura graduada. S. Paulo: Melhoramentos, 1957.

Viagem através do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1954.


Traduções

BINET, Alfred. Testes para a medida do desenvolvimento da inteligência. São Paulo: Melhoramentos, 1929.

CLAPARÈDE, Ed. A escola e a psicologia experimental. São Paulo: Melhoramentos, 1926.

DURKHEIM, Emile. Educação e sociologia. São Paulo: Melhoramentos, 1929.

HIGHET, Gilbert. A arte de ensinar. São Paulo: Melhoramentos, 1957.

PIERÓN, E. Psicologia experimental. São Paulo: Melhoramentos (Biblioteca da Educação), 1926, 158 p.

WALTHER, Léon. Tecno-psicologia do trabalho industrial. São Paulo: Melhoramentos, 1929.


Prefácios

Testes e medidas na educação, coletânea com apresentação de Lourenço Filho. Rio: FGV, 1970, 115 p.

WEIL, Pirre (relator). Pesquisa nacional sobre o nível mental da população brasileira. Rio: SENAC, 1959, 147 p. (Lourenço Filho fez parte do corpo de pesquisadores, entre outros.)



Em periódicos

"Alguns aspectos da educação primária." Revista Brasileira de Estatística, I, 4, Rio, 1940, 18 p.

"Educação e educação física." RBEP, 5 (15): 313-28, set. 1945.

"A educação e os estudos pedagógicos no Brasil." RBEP, 35 (82): 52-66, abr./jun. 1961.

"A educação, problema nacional." RBEP, 1 (1): 7-28, jul. 1944.

"Ensino como ação política." O Cruzeiro, Rio, RBEP, 40 (91): 217-21, jul./set. 1963.

Obs.: Os artigos citados constituem pequena amostra do publicado pelo autor. Maiores informações: Serviço de documentação em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSCar.



Sobre o autor

MERAY, Abu- e FORTES, Nair. Centenário de Lourenço Filho. Rio: Publicações ABE, n. 3, 1997, 32 p.

AUGRAS, Monique. "O Homem e o Mestre (Lourenço Filho)." Revista arquivos brasileiros de psicologia aplicada, FGV, Rio, vol. 23, n. 3, set. 1971, p. 9-12.

BONOW, Iva Waisberg. "Atualidade de Lourenço Filho na psicologia." Revista arquivos brasileiros de psicologia aplicada, FGV, Rio, vol. 23, n. 3, set. 1971, p. 13-20.

"Homenagem a Lourenço Filho." RBEP, 54(119): 98-123, jul./set. 1970.

Um educador brasileiro: Lourenço Filho. Rio: Associação Brasileira de Educação/Melhoramentos, 1957, 250 p.

LOURENÇO FILHO, Ruy. Cronologia e biobliografia do professor Manoel Bergström Lourenço Filho. Rio: Academia Brasileira de Educação/Fundação Cesgranrio, 1996, 26 p.

MADEIRA, Marcos A. "As motivações sociais do psicólogo Lourenço Filho." Revista arquivos brasileiros de psicologia aplicada, Rio, FGV, vol. 23, n. 3, set. 1971, p. 161-170.

NOGUEIRA, Raimundo F. de Sá. "Prática pedagógica de Lourenço Filho no Estado do Ceará." Cadernos de Educação nº 6, Fortaleza, FE/UFC, 1991, 42 p.

SEMONÉRIO, Franco Lo Presti. "In me-moriam (Lourenço Filho)." Revista arquivos brasileiros de psicologia aplicada, FGV, vol. 23, n. 3, set. 1970, p. 5-8.

SILVA, Athayde Ribeiro. "Homenagem da Associação Brasileira de Psicologia Aplicada." Revista arquivos brasileiros de psicologia aplicada, Rio, FGV, vol. 23, n. 3, set. 1971, p. 159-160.

SAMPAIO, Silvia S. Lourenço Filho e a Reforma da Instrução Pública no Ceará: 1922-23. Dissertação de Mestrado. PUC, São Paulo, 1983, 230 p.





Consultada para o verbete

D’ÁVILA, A. O Mestre das Américas: Lourenço Filho (1897-1970). S. Paulo: C. Estudos Roberto Mange, mimeo, 1970, 17 p.

LOURENÇO FILHO, M.B. "O Porto de meu tempo." Revista comemorativa do cinqüentenário de Porto Ferreira, Porto Ferreira, 1946, p. 21-23.

LOURENÇO FILHO, M.B. RBEP, vol. I, ago. 1944, n. 2, p. 219-225. "Modalidades da educação geral."

LOURENÇO FILHO, M.B. RBEP, vol. I, set. 1944, n. 3, p. 393-402. "Programa Mínimo."

Revista do centenário de Porto Ferreira – 1896-1996. Prefeitura Municipal.

Revista Porto Ferreira: Desenvolvimento, luz e amor – 1977-1979. Pref. Municipal.

Consulta a cópias de documentos de Lourenço Filho no museu Prof. Flávio da Silva Oliveira, em Porto Ferreira.



Fonte:

Encarte, Outubro-Novembro/1999 - Publicação do Programa de Pós-Graduação em Educação – CECH – UFSCar

Ademir Valdir dos Santos, professor, doutorando em Fundamentos da Educação no PPGE/UFSCar

Leila Leane Lopes Leal, professora, doutoranda em Metodologia de Ensino no PPGE/UFSCar

Orientação e revisão: Prof. Dr. Paolo Nosella

















Lourenço Filho
     É um educador brasileiro conhecido sobretudo por sua participação no movimento dos pioneiros da Escola Nova.   Foi duramente criticado por ter colaborado com o Estado Novo de Getúlio, todavia, sua contribuição para a educação brasileira mereceria ser melhor estudada.
      Sua obra nos revela diversas facetas do intelectual educador, extremamente ativo e preocupado com a escola em seu contexto social e nas atividades de sala de aula.

Vida e obra

        Manoel Bergström Lourenço Filho, nascido em Porto Ferreira, interior paulista, a 10 de março de 1897, é uma das figuras eminentes da Escola Nova brasileira. Sua formação foi marcada pela influência do pai, o português Manoel Lourenço Filho, comerciante criativo e empreendedor ávido, casado com a sueca Ida Christina Bergström Lourenço.
        Desde menino, em contato com vasta literatura, tornou-se um leitor compulsivo. Nas suas próprias palavras: lia com "bulimia e indiscriminação”. Iniciou a vida escolar na vizinha Santa Rita do Passa Quatro. Prosseguiu em Campinas, depois em Pirassununga e, finalmente, na capital, onde se diplomou na Escola Normal Secundária, em 1917. Matriculou-se na Faculdade de Medicina para estudar psiquiatria, mas abandona após dois anos.
          Em 1919, ingressa na Faculdade de Direito de São Paulo, vindo a bacharelar-se em 1929, depois de longa trajetória interrompida por várias atividades paralelas que desenvolve, com destaque, no campo educacional.
            Sua carreira profissional foi precoce. Pode-se lembrar a premonitória experiência de elaborar um jornal próprio, O Pião, cujo chefe, redator e tipógrafo. Era ele mesmo, menino de 8 anos ainda. Sua vida evidenciará que esse jornal foi mais do que mero capricho de criança: o "brinquedo" o preparou para exercícios profissionais posteriores. Mais tarde trabalhará no Jornal do Comércio, n’O Estado de S. Paulo e na Revista do Brasil, nesta, ao lado de Monteiro Lobato.
            O talento desse educador revelou-se tanto no desempenho discente quanto na atuação docente. Desde o exame de admissão para a Escola Normal Primária de Pirassununga exercitava habilidades docentes ministrando aulas particulares de preparação para os testes admissionais. Também a primeira experiência no ensino público dá-se em sua terra natal, em 1915.
            Novo contato com a sala de aula se fará na Escola Normal Primária de São Paulo, na qual leciona diversas disciplinas pedagógicas, em 1920. No ano seguinte é nomeado para a cátedra de Psicologia e Pedagogia da Escola Normal de Piracicaba. Ali funda a Revista de Educação, que recebe seus primeiros artigos. No final desse mesmo ano, casa-se com Aida de Carvalho, que conhecera em Pirassununga, quando ambos eram normalistas.
            É possível detectar nesse momento da vida de Lourenço a fusão harmônica entre o leitor, o professor, o escritor, o pesquisador e o administrador, potenciais que começavam a demandar espaço.
             Em 1922, a convite do governo cearense, assume o cargo de Diretor da Instrução Pública e leciona na Escola Normal de Fortaleza. As reformas por ele empreendidas no Ceará repercutem no país e podem ser entendidas como germe dos conhecidos movimentos nacionais de renovação pedagógica das primeiras décadas do século.
              De volta ao Estado natal, leciona na Escola Normal de Piracicaba durante o ano de 1924. Em seguida, assume a vaga de Psicologia e Pedagogia da Escola Normal de São Paulo, função que ocupa por seis anos, fervilhantes de pródiga produção, de muitas publicações, inclusive traduções. A influência da Psicologia Experimental é evidente em sua obra, sobretudo nesse momento.
               Sua participação política também merece destaque: presente nas Conferências Nacionais de Educação de 1927 e 1928, respectivamente em Curitiba e Belo Horizonte, apresenta suas idéias quanto ao ensino primário e à liberdade dos programas de ensino. Se não autor, é certamente um dos atores mais importantes do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932. A vasta obra de Lourenço Filho, entretanto, não pode ser vinculada, de modo simplista, apenas à temática do manifesto escolanovista. Mais do que signatário do Manifesto, foi um educador sedento do novo, que bebia nas fontes do novíssimo, das últimas novidades pedagógicas do cenário internacional. Sua preocupação, de fato, voltava-se também para o fazer pedagógico.
             A realidade educacional brasileira é terreno carente mas fértil para contribuições. A preocupação com a educação movia Lourenço Filho. Suas experiências, as viagens pelo Brasil e ao exterior, sua ampla cultura lhe possibilitaram escrever em áreas como Geografia e História do Brasil, Psicologia (testes e medidas na educação, maturação humana), Estatística e Sociologia.
              No campo da Educação, sua contribuição abrange temas como educação pré-primária, alfabetização infantil e de adultos, ensino secundário, ensino técnico rural, universidade, didática, metodologia de ensino, administração escolar, avaliação educacional, orientação educacional, formação de professores, educação física e literatura infanto-juvenil – textos espalhados por numerosos livros, revistas, jornais, cartilhas, conferências, apresentações e prefácios. Há publicação de alguns de seus escritos em inglês, francês e espanhol.
             A formação profissional e os profundos vínculos dessa com sua produção e atuação, conferem a Lourenço Filho o perfil de intelectual educador. Apesar de ter exercido cargos na administração pública federal – como diretor de gabinete de Francisco Campos (1931), como diretor geral do Departamento Nacional de Educação (nomeado por Gustavo Capanema, em 1937) e como diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (1938-46) –, foi sobretudo um professor e um estudioso de assuntos didático-pedagógicos. Viveu os últimos anos no Rio e, vítima de colapso cardíaco, faleceu em 3 de agosto de 1970, aos 73 anos.

Pensamento do autor e sua importância

                A impressão que se tem, à medida que se adentra o universo da produção desse educador é de que ele não se esconde à sombra de nomes como  Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira, contemporâneos seus já objeto de inúmeros estudos. Poderíamos até mesmo conjecturar se seu envolvimento com o governo Vargas não constituiu e constitui, de certa forma, pretexto para obscurecimento da sua figura, num patrulhamento ideológico-político despercebido, como se aceitar cargos num governo ditatorial como foi o de Vargas implicasse necessariamente deixar de ter um posicionamento político crítico.
               Perguntamo-nos aqui se os serviços que prestou naquele período não constituíram meio para realização, no campo educacional, das reformas que idealizara. Lourenço acreditava que a era getulista fosse realmente de modernização. Ou seja, o governo brasileiro daquele momento lhe pareceu oportuno para reformar a educação.
                Também é criticado pelo caráter tecnicista de suas propostas educacionais. Talvez uma investigação aprofundada sobre esse educador pudesse guindá-lo da posição secundária, em que costumeiramente parece ser confinado, para um plano de maior destaque.
                De fato, a obra de Lourenço Filho sobre a Escola Nova é emblemática. Em 1926, por exemplo, em resposta ao inquérito acerca do ensino paulista promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo, apresenta com extraordinária clareza e precisão as características do movimento renovador:
                "A escola tradicional não serve o povo, e não o serve porque está montada para uma concepção social já vencida, senão morta de todo... A cultura, bem ou mal, vinha servindo os indivíduos que se destinavam às carreiras liberais, mas nunca às profissões normais de produção econômica".

                  Esta citação vem confirmar o entendimento do autor, naquele momento, da profunda articulação existente entre a escola e a vida social. Assim,uma escola Moderna só seria a "escola do trabalho". Lourenço Filho tinha claro que a elitização e o intelectualismo da educação brasileira não
 atendiam às necessidades das classes populares, antes as privavam de inserção no esquema produtivo. Há outros pressupostos escolanovistas no mesmo texto, sobre o papel da escola primária:
                  “O verdadeiro papel da escola primária é o de adaptar os futuros cidadãos, material e moralmente, às necessidades vindouras, desde que estas possam ser previstas com segurança. Essa integração da criança na sociedade resume toda a função da escola gratuita e obrigatória, e explica, por si só, a necessidade da educação como função pública. (...)  A escola deve preparar para a vida real, pela própria vida".

                  Arrolamos este opúsculo para demonstrar que, antes mesmo da publicação de seu texto mais famoso, Introdução ao estudo da Escola Nova, o  pensador já apregoava os ideais "modernos". Esse amor ao novo, como já dissemos, é uma marca do pensamento de Lourenço Filho. Utilizava com competência a produção intelectual estrangeira de seu tempo: E. Durkeim, H. Pièron, E. Claparède, H. Wallon, L. Walther, A. Binet, T. Simon, P. Wil, J. Dewey, W.H. Kilpatrick, D. Pierson, B. Russel, O. Decroly, J. Kershensteiner, M. Montessori.
                   No cenário intelectual nacional, relacionava-se com Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Monteiro Lobato, Alceu Amoroso Lima, Almeida Jr., Sampaio Dória, Celso Kelly. Não pretendemos, referindo esses interlocutores, rotular Lourenço Filho como erudito, enfatizamos apenas sua
preocupação em bem fundamentar suas idéias. Dizia:
                      “... sobre educação e futebol não há ninguém que não se julgue capaz de uma opinião pessoal, pelo que é perigoso opinar sobre o assunto sem ampla justificação do ponto de vista tomado".

               Sobre o valor do livro Introdução ao estudo da Escola Nova: Bases, sistemas e diretrizes da Pedagogia contemporânea destacamos um comentário de Fernando de Azevedo: "não há obra que o substitua na literatura pedagógica. Lê-de-o, se quiserdes ter uma visão, larga e profunda, da escola nova". Lembramos que, na época, as discussões sobre a escola nova se davam em vários países. Lourenço Filho procurou dar caracterização nacional à temática, embora na Introdução ao Estudo da Escola Nova muito pouco fale do Brasil, informando, majoritariamente, sobre o movimento no exterior.
                 Poderíamos perguntar, a esta altura, qual a concepção de educação que Lourenço defendia. A polêmica distinção entre educação e ensino e o papel que cabe à escola são focos do artigo
"Modalidades de Educação Geral". Para ele, "ensinar" é a arte de transmitir conhecimentos e técnicas,
ou seja, o ensino é o processo de inculcação de noções e idéias. Esse papel coube historicamente à escola. "Educar" é levar em conta um conjunto de modalidades, “... todas aquelas em que uma educação integral, nessa compreensão, possa fazer supor". Entender essa sua concepção de educação  requer, portanto, elencar inúmeros elementos. Para Lourenço, a educação é eminentemente social, é vida!
                Tal definição de educação vincula o papel da escola à história. Ou seja, se novas condições de vida, se novos problemas e conflitos surgem, reflexos ocorrerão no espaço escolar:
                 "O que a educação agora exige é que se compreenda essa mudança das condições da existência. Nem todos os valores se subverteram, mas a técnica de viver que se apresenta às novas gerações é diversa da nossa, em razão dos progressos da ciência, da economia industrial, dos novos poderes que o homem conquistou sobre a natureza, sobre a vida e a morte, sobre o pensamento".
               
                  Não parece ao leitor que essa citação, tomada por si só, poderia ser incorporada a hodiernos discursos? A complexidade das relações entre a escola e a sociedade, se agora é lugar comum, já era apontada pelo autor, o que exemplifica sua aguda visão. Para que a escola desempenhe uma educação integral, deve oferecer mais do que instrução, a ela cabe integrar os indivíduos. Ainda em suas próprias
 Palavras:
               "A fim de que a escola, primária ou secundária, possa ter caráter educativo pleno, deverá oferecer condições e oportunidades para que os alunos organizem a sua conduta para a saúde, a família, o trabalho, a pátria, a recreação e a religião. Nestes termos se condensam, realmente, todas as modalidades de possível ação educativa".

               Buscar contato com a obra de Lourenço Filho através de um levantamento bibliográfico, localizar e analisar seus escritos, conhecer as idéias de seus comentaristas e mesmo ir à busca de detalhes de sua vida pessoal foram tarefas da investigação inicial que executamos. A produção literária de Lourenço, que apresentamos em parte na bibliografia, ao final do verbete, abrange grande número de publicações do autor e sobre ele, constituindo fração do que conseguimos localizar. Entre os que escreveram sobre a vida e obra desse importante educador, em estudos, críticas, comentários, homenagens e biografias, há renomados analistas.
                Uma viagem de estudo e pesquisa a Porto Ferreira, sua cidade natal, revelou-se bom caminho para obtermos maiores informações sobre a história de vida de Lourenço. Tal visita nos proporcionou acesso a variado material. Assim, constatamos que a figura do educador está presente na memória
 de muitos membros da comunidade, embora o Museu Histórico e Pedagógico e a Biblioteca Municipal, que originalmente chamavam-se, ambos, Professor Lourenço Filho, tenham, atualmente, outra denominação. O museu guarda fotografias, cópias de documentos e exemplares de antigas edições de livros do famoso professor. Talvez o fato de Lourenço Filho ter deixado a cidade natal ainda muito jovem e ter vivido e conseguido projeção longe dela gere um misto de orgulho e ressentimento no imaginário popular dessa pequena cidade do interior paulista. Isso é percebido nos depoimentos de moradores que cultivam, com certo saudosismo, a história da cidade.
                As conclusões que tiramos dessa investigação preliminar são, essencialmente, duas. A primeira é que a vasta produção de Lourenço Filho ainda foi pouco estudada, sobretudo sua contribuição para a educação brasileira. A segunda, vinculada à anterior, é que, melhor conhecendo
 sua vida e obra, poder-se-ia elevar esse educador a um posto de maior destaque entre os educadores brasileiros. Os autores, pessoalmente, arriscam prever que novos estudos sobre o ilustre filho de Porto Ferreira renovarão o brilho do "Mestre das Américas".     Fragmento de A Escola Nova
"Sobre o papel da escola em geral"

                 "O verdadeiro papel da escola primária é o de adaptar os futuros cidadãos, material e moralmente, às necessidades sociais presentes e, tanto quanto  seja possível, às necessidades vindouras, desde que possam ser previstas com segurança. Essa
integração da criança na sociedade resume toda a função da escola gratuita e obrigatória, e explica, por si só, a necessidade da educação como função pública. Por isso mesmo, o tirocínio escolar não pode ser mais a simples aquisição de fórmulas verbais e pequenas habilidades para serem demonstradas por ocasião dos exames. A escola deve
 preparar para a vida real, pela própria vida. A mera repetição convencional de palavras tende a desaparecer, como se viu na nova concepção da ‘escola do trabalho’. Tudo quanto for aceito no programa escolar precisa ser realmente prático, capaz de influir sobre a existência social no sentido do aperfeiçoamento do homem. Ler, escrever e contar são simples meios; as bases da formação do caráter, a sua finalidade permanente e inflexível. Do ponto de vista formal, isso significa a criação, no indivíduo, de hábitos e conhecimentos que influam diretamente no controle de tendências prejudiciais, que não podem ou não devem ser sufocadas de todo pelo automatismo psíquico possível na infância.E como conseqüência, nos grandes meios urbanos, à escola cabe, hoje, iniludivelmente, facilitar a orientação e seleção profissional, pelo estudo das aptidões individuais da criança, conhecimento e esclarecimento do desejo dos pais, tradição e possibilidades da família. Esse aspecto é inteiramente desconhecido em nossas escolas."

Bibliografia Do Autor

* Aventuras de Pedrinho. Livro III. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1955.

* Brasil, paisagens e costumes. São Paulo: Melhoramentos, 1962, 87 p. Cartilha do povo. São Paulo: Melhoramentos, 1928, 48 p.

* Curso de psicologia educacional. Faculdade Nac. de Filosofia, mimeo, 1955.

* Educação comparada. São Paulo: Melhoramentos, 1961, 294 p.

* A Escola Nova (resposta ao inquérito de O Estado de S. Paulo, em 1926). São Paulo: Melhoramentos, 1927, 24

* Estatística e educação. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, 1940, 23 p.

* Introdução ao estudo da Escola Nova. São Paulo: Melhoramentos, 1978, 271 p.

* Histórias do tio Damião (Totó, Baianinha, Papagaio real, Tão pequenino, Saci Pererê, O indiozinho, A irmã do indiozinho, A gauchita, A formiguinha, No circo, Maria do Céu, E eu, também). São Paulo, Melhoramentos, primeira publicada em 1942, última em 1951.

* Juazeiro do Padre Cícero. S. Paulo: Melhoramentos, 1959, 217 p., 1ª ed. em 1926.

* A criança na Literatura Brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1948.

* Leituras de Pedrinho e Maria Clara. Livro IV. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1956.

* Organização e administração escolar: Um curso básico. São Paulo: Melhoramentos, 1963, 288 p.

* A pedagogia de Rui Barbosa/1849-1923. São Paulo: Melhoramentos, 1956, 130 p., 1ª edição em 1954.

* Pedrinho. Livro I. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1953.

* Pedrinho e seus amigos. Livro II. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1954.

* Pedrinho e o mundo. Livro V. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1957.

* Psicologia da aprendizagem e instrução militar. Rio de Janeiro: Biblioteca da Defesa Nacional, 1940, 28 p.

* Psicologia educacional. São Paulo: Melhoramentos.

* Psicologia de ontem e de hoje. São Paulo: Melhoramentos.

* A psicologia a serviço da organização. Conferência de Lourenço Filho de 3/8/1942. Rio: Depto. Adm. do Serviço Público, Imprensa Nacional, 1942, 26 p.

* Tendências da educação brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1940, 164 p.

* Testes ABC para verificação da maturidade necessária à aprendizagem da leitura e escrita. São Paulo: Melhoramentos, 1969, 200 p. (inclui material para aplicação dos testes).

* Testes e medidas na educação. Rio: FGV, 1970, 115 p.

* Upa, cavalinho. Cartilha. Série Leitura graduada. S. Paulo: Melhoramentos, 1957.

* Viagem através do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1954.

Traduções

BINET, Alfred. Testes para a medida do desenvolvimento da inteligência. São Paulo: Melhoramentos, 1929.

CLAPARÈDE, Ed. A escola e a psicologia experimental. São Paulo: Melhoramentos, 1926.

DURKHEIM, Emile. Educação e sociologia. São Paulo: Melhoramentos, 1929.

HIGHET, Gilbert. A arte de ensinar. São Paulo: Melhoramentos, 1957.

PIERÓN, E. Psicologia experimental. São Paulo: Melhoramentos (Biblioteca da Educação), 1926, 158 p.

WALTHER, Léon. Tecno-psicologia do trabalho industrial. São Paulo: Melhoramentos, 1929.

Prefácios

Testes e medidas na educação, coletânea com apresentação de Lourenço Filho. Rio: FGV, 1970, 115 p.

WEIL, Pirre (relator). Pesquisa nacional sobre o nível mental da população brasileira. Rio: SENAC, 1959, 147 p.
(Lourenço Filho fez parte do corpo de pesquisadores, entre outros.)

Em periódicos



"Alguns aspectos da educação primária." Revista Brasileira de Estatística, I, 4, Rio, 1940, 18 p.

"Educação e educação física." RBEP, 5 (15): 313-28, set. 1945.

"A educação e os estudos pedagógicos no Brasil." RBEP, 35 (82): 52-66, abr./jun. 1961.

"A educação, problema nacional." RBEP, 1 (1): 7-28, jul. 1944.

"Ensino como ação política." O Cruzeiro, Rio, RBEP, 40 (91): 217-21, jul./set. 1963.

Obs.: Os artigos citados constituem pequena amostra do publicado pelo autor. Maiores informações: Serviço de documentação em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSCar.

Sobre o autor

MERAY, Abu- e FORTES, Nair. Centenário de Lourenço Filho. Rio: Publicações ABE, n. 3, 1997, 32 p.

AUGRAS, Monique. "O Homem e o Mestre (Lourenço Filho)." Revista arquivos brasileiros de psicologia aplicada, FGV, Rio, vol. 23, n. 3, set. 1971, p. 9-12.

BONOW, Iva Waisberg. "Atualidade de Lourenço Filho na psicologia." Revista arquivos brasileiros de psicologia aplicada, FGV, Rio, vol. 23, n. 3, set. 1971, p. 13-20.

"Homenagem a Lourenço Filho." RBEP, 54(119): 98-123, jul./set. 1970.

Um educador brasileiro: Lourenço Filho. Rio: Associação Brasileira de Educação/Melhoramentos, 1957, 250 p.

LOURENÇO FILHO, Ruy. Cronologia e biobliografia do professor Manoel Bergström Lourenço Filho. Rio: Academia
 Brasileira de Educação/Fundação Cesgranrio, 1996, 26 p.

MADEIRA, Marcos A. "As motivações sociais do psicólogo Lourenço Filho." Revista arquivos brasileiros de psicologia aplicada, Rio, FGV, vol. 23, n. 3, set. 1971, p. 161-170.

NOGUEIRA, Raimundo F. de Sá. "Prática pedagógica de Lourenço Filho no Estado do Ceará." Cadernos de Educação nº 6, Fortaleza, FE/UFC, 1991, 42 p.

SEMONÉRIO, Franco Lo Presti. "In me-moriam (Lourenço Filho)." Revista arquivos brasileiros de psicologia aplicada, FGV, vol. 23, n. 3, set. 1970, p. 5-8.

SILVA, Athayde Ribeiro. "Homenagem da Associação Brasileira de Psicologia Aplicada." Revista arquivos brasileiros de psicologia aplicada, Rio, FGV, vol. 23, n. 3, set. 1971, p. 159-160.

SAMPAIO, Silvia S. Lourenço Filho e a Reforma da Instrução Pública no Ceará: 1922-23. Dissertação de Mestrado. PUC, São Paulo, 1983, 230 p.

Consultada para o verbete

D’ÁVILA, A. O Mestre das Américas: Lourenço Filho (1897-1970). S. Paulo: C. Estudos Roberto Mange, mimeo, 1970, 17 p.
LOURENÇO FILHO, M.B. "O Porto de meu tempo." Revista comemorativa do cinqüentenário de Porto Ferreira, Porto Ferreira, 1946, p. 21-23.
LOURENÇO FILHO, M.B. RBEP, vol. I, ago. 1944, n. 2, p. 219-225. "Modalidades da educação geral."
LOURENÇO FILHO, M.B. RBEP, vol. I, set. 1944, n. 3, p. 393-402. "Programa Mínimo."
Revista do centenário de Porto Ferreira – 1896-1996. Prefeitura Municipal.
Revista Porto Ferreira: Desenvolvimento, luz e amor – 1977-1979. Pref. Municipal.
Consulta a cópias de documentos de Lourenço Filho no museu Prof. Flávio da Silva Oliveira, em Porto Ferreira.

Fonte:

Encarte, Outubro-Novembro/1999 - Publicação do Programa de Pós-Graduação em Educação – CECH – UFSCar
Ademir Valdir dos Santos, professor, doutorando em Fundamentos da Educação no PPGE/UFSCar
Leila Leane Lopes Leal, professora, doutoranda em Metodologia de Ensino no PPGE/UFSCar
Orientação e revisão: Prof. Dr. Paolo Nosella


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LOURENÇO FILHO

                                                       (Márcio Ferrari – Nova Escola 167/2003)
O educador paulista, defensor da educação para todos, antecipou o atual conceito de diversidade
nome de Manoel Bergström Lourenço Filho é hoje o menos lembrado entre os três responsáveis pela revolução modernizadora ocorrida na educação brasileira a partir da terceira década do século 20. Idealizador do movimento da Escola Nova, ao lado do baiano Anísio Teixeira e do mineiro Fernando de Azevedo, em 1932, o professor paulista teve intensa atividade teórica e administrativa, sempre ligado à democratização e à profissionalização do ensino.   Pelas mãos de Lourenço Filho algumas estruturas do ensino brasileiro foram reformuladas de cima a baixo. A primeira delas foi a rede de educação do Ceará, que reformou quando tinha apenas 24 anos, dando a ela feições próximas das que tem até hoje. Tomando a mudança da Escola Normal de Fortaleza como núcleo do trabalho renovador no estado, Lourenço Filho se propôs a "corrigir a orientação literária ou formalística do programa, que, composto mais de ciências abstratas ou descritivas, orna o espírito, mas não o forma". Ou seja, ele orientou com firmeza a formação de professores para a prática em sala de aula e para o domínio das competências profissionais.  "Grande parte do legado de Lourenço Filho não envelheceu", diz Edília Garcia, presidente da Associação Brasileira de Educação, cargo que Lourenço Filho ocupou mais de uma vez. "O espírito da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, por exemplo, preserva suas idéias, principalmente quanto à formação de professores."
           Carlos Monarcha, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Marília (SP) e co-organizador da Coleção Lourenço Filho, série de livros de e sobre o educador mantida pelo Ministério da Educação, ressalta a "revolução" comandada por Lourenço Filho à frente do Instituto de Educação do Distrito Federal (então o Rio de Janeiro), entre 1932 e 1937. Ele reformulou a estrutura curricular de modo a tornar o Normal um curso exclusivamente profissionalizante, criando o modelo para as demais unidades da federação.    Para Lourenço Filho, o problema da educação estava na própria organização social. A ambas faltava, segundo ele, emancipação técnica, uma reordenação que obedecesse a princípios racionais e científicos. Essas preocupações orientaram suas iniciativas nos numerosos cargos públicos que ocupou.
A ciência a serviço de mudanças na educação

          No âmbito do pensamento pedagógico, uma das grandes contribuições de Lourenço Filho foi uma revisão de conceitos à luz de saberes que estavam sendo desenvolvidos no exterior. "Ele se dedicou a organizar um campo de conhecimento antes inexistente — a psicologia aplicada à educação — e assim reinventou e atualizou a pedagogia de forma sem precedentes", diz Monarcha.
          Embora tenha sido contemporâneo e conhecedor da obra de Lev Vygotsky (1896-1934) e Jean Piaget (1896-1980), Lourenço Filho, como psicólogo, se identificava com as escolas norte-americanas influenciadas pelo princípio da determinação biológica. "O esquema fundamental do reflexo condicionado explica toda a aprendizagem", dizia ele.
          Esse tipo de entendimento da mente humana, no entanto, não levava o educador a compartilhar das idéias mecanicamente deterministas que deram sustento a conceitos como o da superioridade racial na virada do século 19 para o 20. Toda sua obra, ao contrário, é marcada pela possibilidade de modificação do ser humano — e o principal instrumento para isso seria a educação.
         Para ele, o domínio de técnicas e métodos científicos permitiria o conhecimento da realidade para que fossem superadas não só as deficiências do ensino, como os sintomas de atraso, entre eles o coronelismo e as ingerências políticas na educação, que o impressionaram quando trabalhou no Ceará.
          Eliminar o analfabetismo e democratizar o ensino eram vistos como requisitos para desenvolver a capacidade produtiva do educando e integrá-lo à sociedade. Em 1926 Lourenço Filho declarou: "Nossa escola não se anima ainda ao calor de um ideal superior de vida em comunidade, nem se agita à luz de um seguro critério democrático".

Testes ABC, caminho para classes homogêneas

             Lourenço Filho combinou a estatística à psicologia para criar uma técnica de avaliação de habilidades e prever as possibilidades de aprendizado: os Testes ABC. O objetivo do material era verificar a maturidade necessária à alfabetização. Foi o trabalho mais difundido do educador, tanto no Brasil como no exterior. "Os testes se transformaram numa febre de época, que procurava concretizar o que já foi chamado de sonho dourado da pedagogia daqueles tempos: a formação de classes homogêneas, para aumentar o rendimento escolar", diz Monarcha.
            Hoje, tanto a aplicação de testes caiu em descrédito entre os psicólogos quanto a idéia de classes homogêneas é criticada pelos pedagogos. Mas isso não tira a importância pioneira de Lourenço Filho em considerar o aluno como indivíduo, com características pessoais — "um ser ativo que se educa, reagindo ao contato com o meio ambiente", como escreveu já em 1923, antecipando conceitos atuais como a diversidade.
           "Um dos erros da escola tradicional era conceber um tipo de criança em abstrato, uma criança de tipo ideal por todos os aspectos, na vida real inexistente"

Biografia
           
                   Filho de pai português e mãe sueca, Manoel Bergström Lourenço Filho nasceu em 1897 em Porto Ferreira, no interior de São Paulo. Cursou duas vezes a escola Normal (em Pirassununga e em São Paulo), fez dois anos de Medicina e formou-se em Direito. Antes mesmo de concluir o curso, foi indicado, aos 24 anos, para diretor da Instrução Pública do Ceará, com a incumbência de reorganizar o ensino do estado.
                 O trabalho, que durou dois anos e meio, foi uma das primeiras realizações da Escola Nova e obteve grande repercussão. Do período passado no Ceará resultou o livro Juazeiro do Padre Cícero, análise do fanatismo religioso para a qual se utilizou de seus conhecimentos em Psicologia. Pelo trabalho, recebeu um prêmio da Academia Brasileira de Letras.
                 Até o fim da vida, Lourenço Filho escreveu e publicou grande número de artigos e livros de psicologia, pedagogia, gestão educacional e literatura infantil, além de obras didáticas. Traduziu títulos importantes de autores como Émile Durkheim (1858-1917) e Edouard Claparède (1873-1940). Entre outros cargos públicos que ocupou, foi diretor-geral da Instrução Pública do Estado de São Paulo, chefiou o gabinete do ministro da Educação e Saúde, Francisco Campos, no governo de Getúlio Vargas, dirigiu o Instituto de Educação do Distrito Federal e organizou e dirigiu o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep), à frente do qual criou, em 1944, a Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Morreu em 1970, no Rio de Janeiro.

Por uma escola pública, integral e laica.

Curso de alfabetização no Piauí, nos anos 1940: democratização da escola brasileira

          A maior influência teórica do movimento da Escola Nova — o grupo liderado por Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho — é a do filósofo norte-americano John Dewey (1859-1952), cuja obra se sustenta em dois princípios básicos: o ensino universal público e gratuito e o primado da experiência na formação do conhecimento. A união do grupo obedecia também a objetivos estratégicos, evidentes no lançamento do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, de 1932.
           O documento surgiu de um chamado do presidente Getúlio Vargas aos profissionais de ensino para que colaborassem com o governo. A intenção do manifesto foi, entre outras, distinguir os educadores chamados liberais, signatários do documento, daqueles ligados ao ensino católico e conservador. O ministro Francisco Campos acabara de favorecer o último grupo ao reintroduzir o ensino religioso facultativo. O Manifesto defende a laicidade do ensino e a obrigação do Estado de tornar efetivo "o princípio do direito biológico de cada indivíduo a sua educação integral".
           
"A intenção de educar pressupõe a possibilidade de modificar o educando"

Um tempo de superações

                Mais do que seus companheiros de geração, Lourenço Filho via a educação como um conjunto de técnicas relativamente desligadas de ideologia e injunções históricas. Apesar disso, sua obra se subordina à idéia do ensino como instrumento principal de transformações sociais."Ele colaborou para elevar o tema da educação ao centro de um imaginário político no qual lhe cabia o papel de concretizar a reforma do Brasil, sua modernização e a superação do atraso", diz o professor Carlos Monarcha, para quem essa foi uma das concepções inspiradoras da proclamação da República, da crítica ao patriarcalismo, nos anos 1920, e de toda a concepção oficial de progresso que prevaleceu durante a era Vargas (1930-1945).O pensamento de Lourenço Filhoé tributário ainda de preocupações típicas da primeira metade do século 20, como a ruptura com o passado nas artes e na filosofia, a fascinação pelos avanços técnicos e a discussão sobre a racionalização do trabalho.            

Para pensar
           
              Para Lourenço Filho, a educação era pensada como um instrumento de "renovação social". Ele defendeu a necessidade da elevação dos níveis de instrução de toda a população como condição para o desenvolvimento econômico da nação. Suas iniciativas na administração pública, como a Campanha de Educação de Adultos, na década de 1940, visavam instituir políticas globais para tornar possível solucionar problemas (o analfabetismo acima de todos) e não simplesmente remediá-los. E você, o que acha? Na sua opinião, a educação ocupa ainda lugar central nas preocupações dos intelectuais e políticos brasileiros?     

Quer saber mais?

* Introdução ao Estudo da Escola Nova, Lourenço Filho, 392 págs., Ed. Uerj
* Lourenço Filho: Outros Aspectos, Mesma Obra, Carlos Monarcha (org.), 152 págs., Ed. Mercado das Letras
* Educação Brasileira: A Atualidade de Lourenço Filho, Nelson Piletti (org.), 223 págs., Ed. Faculdade de Educação da USP
Internet_ Leia a versão eletrônica do livro Por Lourenço Filho: Uma Bibliografia, organizado por Carlos Monarcha e Ruy Lourenço Filho, no site www.inep.gov.br/cibec

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Manoel Bergström Lourenço Filho

(1897-1970)
      "O verdadeiro papel da escola primária é o de adaptar os futuros cidadãos, material e moralmente, às necessidades sociais presentes e, tanto quanto  seja possível, às necessidades vindouras, desde que possam ser previstas com segurança. Essa integração da criança na sociedade resume toda a função da escola gratuita e obrigatória, e explica, por si só, a necessidade da educação como função pública. Por isso mesmo, o tirocínio escolar não pode ser mais a simples aquisição de fórmulas verbais e pequenas habilidades para serem demonstradas por ocasião dos exames. A escola deve  preparar para a vida real, pela própria vida. A mera repetição convencional de palavras tende a desaparecer, como se viu na nova concepção da ‘escola do trabalho’. Tudo quanto for aceito no programa escolar precisa ser realmente prático, capaz de influir sobre a existência social no sentido do aperfeiçoamento do homem. Ler, escrever e contar são simples meios; as bases da formação do caráter, a sua finalidade permanente e inflexível. Do ponto de vista formal, isso significa a criação, no indivíduo, de hábitos e conhecimentos que influam diretamente no controle de tendências prejudiciais, que não podem ou não devem ser sufocadas de todo pelo automatismo psíquico possível na infância.E como conseqüência, nos grandes meios urbanos, à escola cabe, hoje, iniludivelmente, facilitar a orientação e seleção profissional, pelo estudo das aptidões individuais da criança, conhecimento e esclarecimento do desejo dos pais, tradição e possibilidades da família. Esse aspecto é inteiramente desconhecido em nossas escolas”.
  
   
  Nasceu em 10 de março de 1897, na Vila de Porto Ferreira, SP, e faleceu em 3 de agosto de 1970, no Rio de Janeiro. Completou os estudos primários em Santa Rita do Passa Quatro. Em 1914, formou-se professor normalista. Em 1915, iniciou sua carreira no magistério, como professor primário substituto do Grupo Escolar de Porto Ferreira. Em 1916, passou a residir em São Paulo, onde freqüentou a Escola Normal da Praça da República.
         Em 1918, matriculou-se na Faculdade de Medicina, mas não completou o curso. Em 1919, matriculou-se no curso de Direito, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Em decorrência de sua intensa atividade profissional, somente veio a completar o curso de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1929. Em 1920, foi nomeado professor substituto de Pedagogia e Educação Cívica, na Escola Normal de São Paulo. Em 1921, passou a lecionar Psicologia e Pedagogia, na Escola Normal de Piracicaba. Em 1922, passou a atuar no Estado do Ceará, como Diretor de Instrução Pública. Promoveu uma reforma pioneira no ensino cearense.
         Em 1924, voltou a lecionar em Piracicaba. Entre 1925 e 1930, lecionou Psicologia e Pedagogia na Escola Normal da Praça da República, em São Paulo. Em 1929, foi eleito para a Academia Paulista de Letras. Em 1930, foi designado Diretor-Geral da Instrução Pública do Estado de São Paulo. Promoveu importantes reformas no ensino. Em 1932, foi um dos signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Em 1934, foi eleito Presidente da ABE.
         Em 1935, foi nomeado professor de Psicologia Educacional da Universidade do Distrito Federal.. Em 1937, foi nomeado membro do Conselho Nacional de Educação. Nesse mesmo ano, foi nomeado Diretor-Geral do Departamento Nacional de Educação, do MEC. Em 1938, recebeu do Ministro da Educação a incumbência de implantar o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), que passou a dirigir.
          Em 1941, organizou e secretariou a I Conferência Nacional de Educação. Em 1946, assumiu a cátedra de Psicologia, na Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1947, voltou a ocupar o cargo de Diretor-Geral do Departamento Nacional de Educação. Em 1949, organizou e dirigiu o Seminário Interamericano de Alfabetização e Educação de Adultos, realizado no Rio de Janeiro, sob os auspícios da OEA e da UNESCO. Nessa ocasião, recebeu o título de Maestro de las Américas.
          Em 1951, foi nomeado Presidente da Comissão Executiva do Centro de Formação de Pessoal para Educação Fundamental na América Latina, no México. Também representou o Brasil no Conselho Cultural Interamericano, no mesmo país. Em 1952, foi eleito presidente do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura.
   Aposentou-se em 1957, mas continuou atuando em várias comissões educacionais.


Bibliografia Do Autor

* Aventuras de Pedrinho. Livro III. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1955.
* Brasil, paisagens e costumes. São Paulo: Melhoramentos, 1962, 87 p. Cartilha do povo. São Paulo: Melhoramentos, 1928, 48.
* Curso de psicologia educacional. Faculdade Nac. de Filosofia, mimeo, 1955.
* Educação comparada. São Paulo: Melhoramentos, 1961, 294 p.
* A Escola Nova (resposta ao inquérito de O Estado de S. Paulo, em 1926). São Paulo: Melhoramentos, 1927
* Estatística e educação. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, 1940, 23 p.
* Introdução ao estudo da Escola Nova. São Paulo: Melhoramentos, 1978, 271 p.
* Histórias do tio Damião (Totó, Baianinha, Papagaio real, Tão pequenino, Saci Pererê, O indiozinho, A irmã do indiozinho, A gauchita, A formiguinha, No circo, Maria do Céu, E eu, também). São Paulo, Melhoramentos, primeira publicada em 1942, última em 1951.
* Juazeiro do Padre Cícero. S. Paulo: Melhoramentos, 1959, 217 p., 1ª ed. em 1926.
* A criança na Literatura Brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1948.
* Leituras de Pedrinho e Maria Clara. Livro IV. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1956.
* Organização e administração escolar: Um curso básico. São Paulo: Melhoramentos, 1963, 288 p.
* A pedagogia de Rui Barbosa/1849-1923. São Paulo: Melhoramentos, 1956, 130 p., 1ª edição em 1954.
* Pedrinho. Livro I. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1953.
* Pedrinho e seus amigos. Livro II. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1954.
* Pedrinho e o mundo. Livro V. Série Leitura graduada. São Paulo: Melhoramentos, 1957.
* Psicologia da aprendizagem e instrução militar. Rio de Janeiro: Biblioteca da Defesa Nacional, 1940, 28 p.
* Psicologia educacional. São Paulo: Melhoramentos.
* Psicologia de ontem e de hoje. São Paulo: Melhoramentos.
* A psicologia a serviço da organização. Conferência de Lourenço Filho de 3/8/1942. Rio: Depto. Adm. do Serviço Público, Imprensa Nacional, 1942, 26 p.
* Tendências da educação brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1940, 164 p.
* Testes ABC para verificação da maturidade necessária à aprendizagem da leitura e escrita. São Paulo: Melhoramentos, 1969, 200 p. (inclui material para aplicação dos testes).
* Testes e medidas na educação. Rio: FGV, 1970, 115 p.
* Upa, cavalinho. Cartilha. Série Leitura graduada. S. Paulo: Melhoramentos, 1957.
* Viagem através do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1954.

Principais obras publicadas:

- Juazeiro do Padre Cícero. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1926.
- Introdução ao Estudo da Escola Nova. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1930.
- Testes A,B,C. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1933.
- Tendências da Educação Brasileira. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1940.
- A Pedagogia de Rui Barbosa. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1954.
- Organização e Administração Escolar. São Paulo, Editora Melhoramentos, 1963.



Historiografia comparada da escola nova: algumas questões
Profª Drª Clarice NUNES*

Resumo:
O artigo se coloca como desafio discutir as possibilidades e limites da construção de uma historiografia educacional comparada. A título de exemplo, indica a problematização das biografias dos educadores como um campo passível de estudos comparativos e se detém na análise da biografia de Lourenço Filho.

Palavras-chave: Escola Nova; História da Educação; Historiografia comparada.

Pensar numa historiografia comparada da escola nova é, antes de tudo, enfrentar a perspectiva de responder o que é, de fato, comparar? o quê buscamos comparar? com que finalidade? No painel anterior, quando me posicionava contra as generalizações estéreis e a radicalidade na compreensão da singularidade, estava justamente procurando criar um terreno de pensamento e interlocução propício para superar o impasse em que estas duas posições nos colocam já que ambas, na minha perspectiva, inviabilizam a comparação.1

Comparar é uma forma própria de pensar as questões. É mesmo uma forma intuitiva de conhecer que usamos no cotidiano quando enfrentamos situações novas. Nesses casos, a comparação nos ajuda a compreender e definir o que nos parece novo.

Somente no final do século XIX, com a consolidação das Ciências Sociais, é que a comparação entre as sociedades tornou-se uma forma sistemática de conhecimento. Nesse momento, portanto, os estudos comparados surgem marcados pela matriz teórica hegemônica do pensamento universitário: o positivismo, para o qual as sociedades humanas são regidas por leis naturais, invariáveis e independentes da vontade e da ação humana. Ora, dentro desta forma de pensar, se se estabelecem quais leis regem as sociedades, é possível compará-las e classificá-las num continuum histórico, a partir de seu grau de evolução, ou de desvio da sociedade, tomada como ponto de referência ou modelo. Assim, as diferenças são usadas para construir um discurso que salienta a superioridade de alguns por contraste à inferioridade de outros. Foi com esta perspectiva que muitos organismos internacionais realizaram diagnósticos e propuseram políticas de intervenção na educação dos países denominados subdesenvolvidos, à luz de metas e realizações dos países considerados desenvolvidos.

No âmbito da produção do conhecimento histórico, a comparação foi preocupação de autores positivistas, como Toynbee e Splenger e, mais recentemente, tem sido tema não só de autores relativamente independentes, como Paul Veyne, para quem toda história é história comparada, mas também de autores que se agrupam na famosa Escola dos Annales. Já em 1928, Marc Bloch propunha um programa de história comparada das sociedades européias, com a finalidade de o historiador ter acesso às causas fundamentais que originavam as semelhanças e diferenças entre os países europeus. Para ele, esses estudos permitiriam ao investigador escapar das fronteiras artificiais que, muitas vezes, justificam as pesquisas. Depois de Bloch foi Braudel quem, ao propor uma "história total" , fortaleceu a exigência do domínio do método comparativo.

Embora não tenhamos avançado substancialmente na reflexão da comparação como questão teórica, talvez possamos afirmar, à luz das contribuições existentes e procurando escapar da postura positivista no seu trato, que comparar é reconhecer o igual e o diferente entre os elementos da comparação e, dessa forma, compreender cada caso em sua especificidade. Ao fazê-lo, temos enriquecido o conhecimento do outro e de nós mesmos. Isto significa que a comparação é fundamental instrumento para escaparmos ao etnocentrismo, já que o contato com o diferente nos coloca questões antes impensadas e cria a possibilidade de um novo olhar. Assim, comparamos com o intuito não de nos reconhecermos no outro ou nos diferenciarmos dele, mas sobretudo para entender as próprias singularidades construídas historicamente, as influências comuns, as soluções específicas, o que redundaria na superação de três idéias muito caras ao senso comum e ao senso comum acadêmico: supor a absoluta homogeneidade dos processos latino-americanos; supor a absoluta originalidade dos processos nacionais; priorizar as fronteiras políticas nacionais nas nossas análises.

Por outro lado, se não há ainda tratamento teórico substantivo sobre a comparação, o caso talvez seja trabalhar na direção da identificação da singularidade dos processos e, neste trabalho, dialogar com a possibilidade de comparação, teorizando as operações realizadas na pesquisa a partir delas e não num a priori a elas. A proposta de realizar um estudo comparado sobre a Escola Nova recorta a questão da comparação dentro da área da História da Educação, mas ainda mantém a necessidade de outros recortes mais precisos dentro do tema em questão. A partir do reconhecimento das nossas singularidades, que categorias poderiam ser criadas para avançar além da justaposição dos casos estudados?

Entendo que a abordagem comparada em estudos históricos da educação demonstra a necessidade que temos de conhecimento e aprofundamento da compreensão de nossos problemas comuns e justifica intercâmbios acadêmicos como este que procuram construir um olhar próprio sobre nossas inquietações, possibilidades e interesses, buscando alternativas de resposta às questões que nos afligem.

Dentro do tema da Escola Nova, tal como a tenho trabalhado, examinando sobretudo as inovações introduzidas nas escolas públicas das décadas de 20 e 30, o esforço de visualizar os educadores responsáveis pela sua implantação em diversas cidades brasileiras, não apenas no horizonte de sua classe social (educadores burgueses), mas principalmente a partir de sua prática (como estavam enfrentando o mundo? o que estavam sendo?), levou-me a problematizar a biografia dos educadores, o que a maioria dos autores da nossa literatura pedagógica considera como questão dada, resolvida no âmbito da história que elaboram.

A necessidade de problematizar a biografia emergiu do objetivo que me coloquei de problematizar as experiências desses educadores de forjarem uma identidade própria do ponto de vista pessoal e social. Esta iniciativa obrigou-me, num certo momento, a operar um deslocamento do sujeito-singular para o sujeito-coletivo e a identificar as representações que certas matrizes de pensamento, presentes nas reformas educativas, criaram para esses educadores com relação ao seu próprio trabalho.

Quem são esses educadores? São intelectuais que fizeram uma escolha existencial pela tarefa educativa. Esta escolha é um nó onde se enlaça a história pessoal, a experiência de geração e a sua produção. São profissionais que circulam espacialmente, institucionalmente e ideologicamente. São intelectuais criados pelos cursos superiores tradicionais: o Direito, a Medicina e a Engenharia (Escola Politécnica), mas não só por eles. Os seminários, as livrarias, as editoras, os bares e os quartos de pensão foram também locus de reunião e formação desses intelectuais. O primeiro ponto a reter é, portanto, o fato de que para a geração de intelectuais dos anos 20 e 30, a universidade ou o ensino superior não foi o local exclusivo e muitas vezes nem o mais importante da sua formação intelectual.

Qual foi a tarefa básica dos intelectuais assim forjados? Secularizar a cultura. Um ponto importante dessa secularização para a qual trabalharam incansavelmente foi operar a passagem da escola enquanto extensão do campo familiar, privado e religioso para o espaço público da cidade. Os sinais de que a Igreja, no início do século XX, comandava o campo educacional, detendo o monopólio educativo, são bem concretos e podem ser notados no conteúdo das cartilhas, nos livros de leitura, nos programas escolares, na forma como os alunos tratavam os mestres. A Igreja definia-se como anti-moderna, mas apresentava certa flexibilidade para absorver certas definições competidoras da realidade e subordiná-las à fé. Certos colégios jesuítas, por exemplo, tiveram os melhores laboratórios de ciências naturais do país e seus professores-padres eram pesquisadores importantes da fauna e flora brasileiras sendo, inclusive, colaboradores de revistas estrangeiras.

Como secularizar este "clima" tão religioso, particularista? Criando um outro tipo de educador e de escola, moldando-o com a expectativa de um futuro, de um sonho que exigia árduo esforço ideologizador no sentido de valorizar a ciência, a indústria e a democracia. Como foi feita esta criação? Através de um projeto pedagógico que, no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras, veio a ser batizado de Instituto de Educação. Ele mereceu um prédio próprio que, no caso do Rio de Janeiro, trazia no seu estilo neo-colonial a marca de um nacionalismo que conviveu com uma disposição arquitetônica semelhante à da pedagogia jesuíta, mas que incorporou os espaços da prática científica mais moderna, como os laboratórios, que foram introduzidos no país na década de
10 e eram, nesse momento, antes de serem absorvidos pelas Escolas Superiores de Medicina, instituições que lhes faziam concorrência.

O segundo ponto a reter, portanto, é o fato de que o locus de formação do educador profissional foi o Instituto de Educação, que reunia à arquitetura monástica (quadra, claustro, divisão disciplinar e metódica do espaço interno, fechado, voltado para si mesmo) as conquistas da ciência do século XIX, particularmente de uma Biologia, de uma Psicologia e Estatística aplicadas à educação. Isto, no entanto, não se fez sem conflitos porque as experiências dos laboratórios de Psicologia das Escolas Normais conviveram com a reflexão de costumes. Esta convivência não foi tranqüila, principalmente quando a ênfase recaía sobre certas experiências de laboratório que, voltadas para a anatomia e a fisiologia, companheiras inseparáveis da Psicologia Educacional, criavam enorme polêmica justamente porque traziam à tona assuntos controvertidos como a educação sexual.

O terceiro ponto a reter é que a criação dos Institutos de Educação, locus da formação do educador profissional, tiveram como alvo – via reorganização escolar – a mudança do habitus pedagógico e, por extensão, da mentalidade coletiva. Neste sentido, os Institutos de Educação sofreram a influência de institui-ções concorrentes à universidade existente, os laboratórios, que procuraram substi-tuir a Igreja na tarefa de normatização e enquadramento dos costumes urbanos no trato do corpo, no uso do espaço e do tempo e na convivência social.

O Instituto de Educação não foi a única estratégia no processo de criar o educador profissional. Era preciso instituir lugares de atuação desse profissional e legitimá-los. E isto foi realizado pelas reformas de educação pública, nas décadas de 20 e 30, que passaram a definir competências específicas, instâncias, hierarquias, prioridades e uma linguagem comum. Isso se fez através do saber jurídico que criou, dentro dos Departamentos de Educação instrumentos jurídicos valiosos já que garantiram: a delimitação das exigências de ingresso na profissão, as condições de trabalho, a regulamentação da carreira, os incentivos, as penalidades, os espaços de atuação e o seu valor social. Mas o que é mais importante, o saber jurídico afirmou uma certa mentalidade que estava sendo formada, de fato, nas lutas sociais do período. Criou e consolidou grupos profissionais. Criou, principalmente, a imagem das instituições instituídas. O quarto ponto a reter é que o saber jurídico foi a argamassa do educador profissional. Ele o definiu, traçou-lhe o perfil. Contribuiu para a construção de uma identidade, hoje em crise.

Em síntese, os saberes geradores de uma definição específica para o campo educacional, nas décadas de 20 e 30, foram provenientes sobretudo do Direito e da Medicina. Do saber jurídico, o educador utilizou os instrumentos para a definição do campo. Do saber médico, os procedimentos científicos da observação e da experimentação. Mas a secularização colocava um problema para o qual nenhum desses saberes lhes dava resposta. Em contraposição ao significado integrador da religiosidade, ela deveria ser capaz de propor um outro que se tornasse totalizador da experiência e do conhecimento pedagógico de seus agentes e, portanto, produzisse novos valores. Neste sentido, o afastamento de uma interpretação sacralizada da vida social, no âmbito da escola, foi peculiar: manteve o apelo soteriológico ou salvacionista do saber religioso, articulando-o às racionalizações trazidas pelas ciências humanas e pelas técnicas de controle social em desenvolvimento nas primeiras décadas do século XX.

Creio que o que foi sucintamente exposto, em termos de resultados de pesquisa, permite-me retomar a questão dos estudos comparados dentro da temática da Escola Nova. Minha contribuição, a partir da singularidade da experiência que estudo, se expressa na indicação de três pontos de reflexão que apresento como afirmações, menos com a perspectiva da fácil generalização e mais com o intuito de encaminhar elementos para discussão:

1. A investigação comparada da Escola Nova na Argentina, Colômbia e Brasil poderia trabalhar com a perspectiva de que este movimento, no âmbito da educação desses (e outros) países latino-americanos, constituiu-se, sobretudo, numa estratégia política de secularização da cultura. Neste sentido, a abordagem comparada poderia ressignificá-lo, desvendando-lhe novas funções e finalidades na formulação de representações e práticas escolares estudadas. Um desses significados, que está totalmente ausente da literatura pedagógica, é o de que a Escola Nova alargou a concepção de linguagem escolar, superando o tradicional domínio oral e escrito e buscando a construção de todo um sistema de produção de significados de interação comunicativa.

2. Se aceitamos o ponto de partida inicial, poderíamos perguntar: quem formula essa estratégia? o que nos levaria, em alguns casos, a reexaminar e, em outros, a examinar, as matrizes teóricas nas quais os educadores se apoiaram para construir seu pensamento e sua ação? Esta não é uma tarefa fácil, já que examinar maneiras de pensar pressupõe que se visualizem a forma complexa como se articulam, suas diversas tendências que operam em torno de questões específicas produzidas por diferentes práticas sociais. Posso exemplificar esta afirmação, mas para tanto sou obrigada a me estender um pouco mais detidamente sobre as matrizes interpretativas que identifiquei nos meus estudos sobre a implantação da Escola Nova no país e mais especificamente na cidade do Rio de Janeiro.

No caso brasileiro pude constatar duas vertentes interpretativas formadoras dos educadores: a histórico-sociológica, forjada pela matriz jurídica, e a psicológica, forjada pelas teses produzidas nas faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia e pelas pesquisas produzidas nos laboratórios de Psicologia Experimental, existentes no país desde a década de 10 e em expansão na década de 20 e dos estágios ou cursos especializados que, já no início do século XX, médicos brasileiros realizavam sob orientação de psiquiatras nos laboratórios de Psicologia da Europa.

A vertente histórico-sociológica foi sendo forjada pela matriz da formação jurídica graças à influência da Faculdade de Direito do Recife sobre os demais cursos jurídicos que atribuía grande ênfase aos estudos sociais. As obras de Sílvio Romero são, neste sentido, clássicas. Estes estudos acentuavam a importância do conhecimento dos problemas da sociedade brasileira mais para situá-la na corrente de uma história da humanidade, privilegiando, portanto, as sínteses totalizantes e apresentando uma visão estrutural das relações sociais. Durante muito tempo a formação básica dos sociólogos brasileiros foi obtida nas Faculdades de Direito (Correa, 1982).

Uma grande parte dos primeiros profissionais da educação como Antonio Carneiro Leão, Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho, foi formada por essas faculdades. Nelas, esses profissionais aprenderam mais do que uma forma de interpretar a realidade. Prepararam-se também, graças às características da vida acadêmica dos cursos jurídicos e particularmente às práticas jornalísticas aí desenvolvidas, para a vida política através de um publicismo engajado na discussão de questões de natureza diversa. Discerniam, na prática, como as idéias liberais poderiam e deveriam ser expressas. As Faculdades de Direito teriam ensinado aos intelectuais, segundo Adorno, menos a serem juristas e mais a terem uma postura liberal, pelo que podem ser vistas como notáveis escolas de costumes (Adorno, 1988).2

Ao contrário da perspectiva globalizante da matriz jurídica, a matriz de formação médica era mais analítica do que sintética, enfatizava a experiência e tendia a fazer prevalecer o empírico sobre as generalizações. Educadores como Júlio Afrânio Peixoto (1876-1947) e Arthur Ramos (1903-1949), entre outros, haviam recebido esta formação.

Apesar das diferenças entre os registros de interpretação da realidade forjados por essas duas matrizes, havia campos de interseção entre ambas, caso da Medicina Legal, que aproximou médicos e juristas na propagação das idéias da escola penal italiana, das diversas teorias psicanalíticas e, por fim, das concepções relativas à psicologia clínica. A divulgação das teorias psicanalíticas e da psicologia clínica aproximou também médicos e educadores e sensibilizou estes últimos a se dedicarem à difusão dos princípios de higiene mental e à prática de instrumentos simplificados de diagnóstico, como os testes mentais. A vertente psicológica tornou-se hegemônica na construção da secularização do campo educacional, tendo em Lourenço Filho um de seus principais intérpretes.

O concurso da Psicologia como conhecimento chave da elaboração de novas formas de interpretar a realidade social e pedagógica cresceu com os esforços multiplicados pelos movimentos de renovação escolar e da racionalização do trabalho. Foi este último campo que aproximou educadores, médicos e administradores (sobretudo engenheiros), interessados nos problemas de for-mação de pessoal para as indústrias e de sua seleção (Adorno, 1988, p.267)

A ampliação dos contatos entre profissionais de formação diversa (embora essa diversidade ainda fosse restrita) e a polivalência dos primeiros profissionais da educação levou muitos deles a desprenderem-se de sua filiação institucional original e a matizar sua formação teórica inicial através de experiências profissionais que, em certos momentos da trajetória biográfica, se inclinaram mais para novos interesses, modelos interpretativos e áreas de conhecimento. Em outros, esta polivalência significou o resgate de uma filiação original interrompida, frustrada. É o caso de Lourenço Filho, formado pela antiga Escola Normal Secundária e graduado na Faculdade de Direito de São Paulo. Ele mesmo declara que o fato de haver realizado os primeiros anos do curso de medicina talvez houvesse influído não só no seu interesse (redobrado pelas exigências da docência) pelos livros de Psicologia Educacional procedentes dos Estados Unidos, mas também na realização de diversas experiências no emprego dos testes, cujos primeiros resultados divulgaria em artigo datado de 1921.3

Lourenço Filho inicia sua carreira de autor como intérprete da realidade sertaneja nordestina para, a seguir, dedicar-se à publicação de obras famosas no âmbito da Psicologia Escolar. Foi justamente sua incumbência de reorganizar o ensino público no Ceará que o levou a percorrer os sertões a fim de instalar escolas e, conseqüentemente a examinar as condições da vida regional e da mentalidade do sertanejo. A fama das suas obras como psicólogo escolar e sua presença marcante nas reformas de instrução pública do primeiro quartel do século XX encobriram o sucesso da sua obra de estréia nas letras brasileiras, publicada em 1926 por uma editora paulista e em função da qual ele foi eleito para a Academia Paulista de Letras e premiado pela Academia Brasileira. Introdução ao Estudo da Escola Nova (1930) e Testes ABC para verificação da maturidade necessária à aprendizagem da leitura e escrita (1932) foram, sem dúvida, mais lidos pelos professores das escolas públicas do que Juazeiro do Padre Cícero (1926).4

Numa conjuntura intelectual em que a Universidade e a tradição de pesquisa eram inexistentes, o educador era sobretudo um publicista e um literato. Como salienta Hélio Silva, ao analisar o livro indicado, a constatação da unanimidade em torno do texto indicava que se tratava de uma obra esperada (Silva, 1983, p.6). Ele obteve sucesso num momento em que não só havia um intenso debate sobre o caráter nacional brasileiro, mas também no qual se pontuava a nação como raça.

Apesar de o livro não ter se tornado um clássico na literatura brasileira ou não ser praticamente comentado pelos pedagogos, ele encarnou uma espécie de bússola do projeto intelectual de Lourenço Filho, como salienta Hélio Silva, e que sintetizo nos seguintes aspectos: uma visão essencialista do país (a busca do âmago da nacionalidade); a defesa da formação das elites com espírito público, uma análise em que o psicológico se interpenetra confusamente ao cultural ou simplesmente o elimina; a denúncia do pensamento mágico derivado da ignorância das camadas populares; a prescrição da educação como ordenadora do "caos" social e a defesa da modernização da sociedade através da ciência (Silva, 1983, p.6).

O livro, cuja matéria fora publicada antes numa série de artigos, no jornal O Estado de S. Paulo, descreve uma viagem da cidade para o sertão, e as observações sobre a paisagem e os tipos humanos remetem e transmutam a descrição espacial em uma reflexão sobre o tempo brasileiro, opondo Fortaleza, a cidade (o presente) a Juazeiro do Cariri, o sertão (o passado). O que queremos salientar é que, de um lado, este livro, considerado uma contribuição no campo da Psicologia Social, defende uma tese, como já vimos, cara ao nosso autor: a necessidade de reformar os costumes.

Lourenço Filho inicia seu livro afirmando que o nordeste é o exemplo vivo dos erros e crimes republicanos. Juazeiro, potência fora da lei e da razão, reunia, em sua perspectiva, a um só tempo, o arraial, a feira, o antro, a oficina, o centro de orações e o enorme hospício. É desse ângulo que o autor julgava o país, não como um gigante adormecido, mas como um grande corpo, que caminhava às cegas, capaz de destruir-se a si próprio. Sob a inspiração de Alberto Torres, apesar da ressalva do seu anseio por uma constituição salvadora, de Oliveira Viana que lhe fornece, além da inspiração, a epígrafe de abertura e sob o patrocínio de Júlio de Mesquita Filho, Lourenço propõe-se a encarnar, como julga ter Euclides da Cunha feito em Os sertões, o papel do patologista social, que pretende contribuir para reconquistar Juazeiro à civilização da cidade.

O educador é apresentado como o condutor iluminado, abnegado, imbuído da missão redentora e de uma vontade conversora. É o herói civilizador. A massa é amorfa, doente e triste. Em Lourenço Filho, acentua-se consideravelmente a percepção das camadas populares sob um ângulo psiquiátrico que empurra para o plano da doença mental as anomalias que retrata e para o plano da terapia social o papel do educador. Suas obras subsequentes vão retomar e reforçar os aspectos psicológicos envolvidos no processo educacional. É sob esse ângulo restrito que ele visualizaria a profissionalização da educação e trabalharia para concretizá-la utilizando o paradigma indiciário.

O modelo epistemológico indiciário que, segundo Ginzburg, passou despercebido e foi mais operado do que explicitamente teorizado, pressupõe, além do minucioso reconhecimento da realidade e seu registro para a descoberta de sinais diretamente não experimentáveis, os seguintes aspectos: as operações intelectuais de observação, análise, comparação e classificação; a atitude orientada para o estudo de casos particulares reconstruíveis justamente pelas pistas que permitiriam elaborar "histórias" precisas de cada doença; a ênfase na perspectiva individualizante (mesmo que o indivíduo seja talvez um grupo social ou uma sociedade inteira). Quando Ginzburg mostra como estes traços estiveram presentes no trabalho de Morelli, Conan Doyle e Freud, salienta que todos eram médicos. As conclusões que extrai da sua análise evidenciam que não se trata simplesmente de coincidências biográficas, mas da afirmação, no âmbito das ciências humanas, de um paradigma articulado em disciplinas diferentes e muitas vezes ligadas entre si pelo empréstimo de métodos ou termos-chave.5

De fato, a semiologia médica se impôs em vários campos do conhecimento permitindo o livre trânsito dos médicos entre eles. No Brasil, no final do século XIX, a aproximação entre a medicina e a literatura levou não só à medicalização da linguagem do romance, mas abriu caminho para os médicos, como Afrânio Peixoto e Oswaldo Cruz, a tornarem-se membros da Academia Brasileira de Letras. Afrânio Peixoto, com vários livros publicados no âmbito da medicina e extensos estudos sobre defloramento e pederastia, escreveu também Noções da História da Literatura Brasileira (1931), no qual revela a importância da teoria do meio ambiente como modelo explicativo para as manifestações sócio-político-econômicas. Ao apresentar, nessa obra, um grande painel histórico do país, Afrânio Peixoto disserta também sobre flora e clima, trabalhando as diretrizes básicas do pensamento de Taine: raça, meio e momento.6 Afrânio Peixoto também é autor de Noções de história da educação (1942), um dos livros de história da educação mais lidos pelas gerações que nos antecederam.

O casamento da ciência com a literatura resultou na construção de uma análise que, mesmo matizada pelo registro religioso, discutiu a nacionalidade a partir de um pensamento operatório que buscava os remédios para a cura de um organismo social doente. Nas primeiras décadas do século XX, o livre trânsito dos médicos pela educação não só ampliava, mas reforçava o pensamento operatório, validando sua sofisticação e vulgarização no âmbito do registro da vida escolar, onde a experimentação passou a sofrer rigoroso controle estatístico, como nos mostra o prefácio de Testes ABC. Neste livro, ao definir a alfabetização como a técnica fundamental da escola, Lourenço Filho propôs uma nova forma de abordá-la a partir do conhecimento anterior da matéria-prima e do conseqüente ajustamento das máquinas que a devem trabalhar (Lourenço Filho, 1933, p.12-13).

A nova educação, segundo Lourenço Filho, conheceria o equipamento natural da criança medindo, mensurando comportamentos naturais com a maior precisão possível. Os Testes ABC tiveram sua origem no tratamento especial de alunos repetentes, em Piracicaba, no ano de 1920, à luz da literatura internacional existente. Foram produzidas 25 provas iniciais que acabaram sendo reduzidas para 15 e finalmente para 8 (discriminação visual das formas geométricas; discriminação das formas geométricas pela reprodução dos movimentos; coordenação motora; discriminação de sons na pronúncia das palavras; memória imediata visual ou auditiva; memória compreensiva; compreensão; atenção e fatigabilidade). O que significavam estas provas? Nas palavras de Lourenço Filho, uma amostra de comportamento cuja correlação se mostrava pertinente com relação à idade mental e ao quociente de inteligência , e não com relação ao sexo e à idade cronológica. Ainda, segundo ele, Isaías Alves havia mostrado a variabilidade dos resultados, com relação à cor. Estes seriam mais favoráveis no caso das crianças brancas do que no caso das crianças negras (Lourenço Filho, 1933, p.55-89).
O que se esperava dos resultados desses testes? Que oferecessem o diagnóstico individual com relação à maturidade para aprendizagem da leitura e da escrita; o diagnóstico médio da classe; a triagem dos alunos novos (particularmente os suspeitos de defeitos de visão, audição e problemas emocionais) e o prognóstico para organização das classes seletivas: os "bem-dotados", os "normais" e os "sub-normais". De acordo com os resultados aferidos, a criança sofreria um trabalho corretivo no âmbito médico e/ou no âmbito pedagógico, quando seria encaminhada para instituições adequadas ou turmas mais lentas. Os casos mais graves poderiam ter sua matrícula impedida na escola.

Os testes escolares aproximavam os esforços do médico, do educador e do estatístico, promovendo um minucioso reconhecimento das possibilidades e limites da aprendizagem da criança e o estudo dos casos isolados para correção adequada. Daí a sua ênfase na perspectiva individualizante, mesmo quando focaliza o perfil da classe. Por analogia, através de respostas provocadas pela reação da criança aos estímulos do aplicador, seria revelado o seu retrato do ponto de vista da maturidade ou não para a aprendizagem da leitura e da escrita. Os testes escolares (assim como os testes de encaminhamento profissional) tornaram-se a coqueluche dos educadores, em vários estados brasileiros, por várias décadas, nas escolas públicas e particulares do país.

Lourenço Filho não foi o primeiro, nem o único, a apresentar os testes como instrumento de trabalho do educador, mas consagrou a sua utilização por realizar nos grupos escolares da capital de São Paulo a maior organização psicológica de classes até então tentada na América Latina, envolvendo 20.000 crianças, e por produzir, em diálogo com os mais avançados centros de Psicologia do seu tempo, um conhecimento que foi reconhecido nacional e internacionalmente. Testes ABC, ao lado de outras obras suas no âmbito da Psicologia da Educação, foi traduzido em várias línguas, incluindo o inglês, o francês, o espanhol e o árabe.

O que quero ressaltar neste percurso de Lourenço Filho, e que se reflete no histórico das suas publicações, é que ele sai do ensaísmo que o colocaria, sem aquilatarmos qualquer avaliação das qualidades intrínsecas da sua obra, ao lado de Gilberto Freyre (Casa Grande e Senzala), Alfredo Ellis Jr. (Raça de Gigantes), Paulo Prado (Retrato do Brasil), Sérgio Buarque de Hollanda (Raízes do Brasil) e Eduardo Frieiro (O brasileiro não é triste), ou de todos os autores de À margem da história da república, para os experimentos realizados nos laboratórios de Psicologia e nas classes primárias.

Preocupado com a cultura brasileira e suas "patologias", como o eram, grosso modo, os ensaístas do seu tempo, Lourenço Filho optou por resolver sua preocupação não de uma forma projetiva como estes o fizeram, mas no âmbito restrito das atividades de pesquisa. Ele tratou da educação como integração nacional, questão da sua época, do ponto de vista do aporte biológico (Silva, 1983, p.75). Com relação a este aspecto, também outros intelectuais, fossem médicos, engenheiros ou educadores, aplicaram-se à pesquisa chegando a criar institutos específicos e a ampliar, e muito, com a divulgação dos resultados dos seus trabalhos, a bibliografia pedagógica brasileira. No histórico que faz sobre a Psicologia no Brasil, Lourenço Filho oferece um panorama da expansão destas iniciativas no país (Lourenço Filho, s.d.[b]). O fato é que os testes apresentaram-se para certos setores da intelectualidade como panacéia para muitos males, sendo defendidos por intelectuais de diferente formação que, no entanto, convergiam na apreciação de que o conhecimento e o controle da diferenciação entre os homens era fundamental e ganhava um instrumento eficaz para a legitimação de políticas de intervenção e ordenação social.

Se os testes mobilizavam a intelectualidade em São Paulo, onde o universo da produção era mais preciso, a tratar enfaticamente da seleção profissional e da organização racional do trabalho, no Rio, catalisavam o tema da formação das elites nacionais. Foi o sonho da descoberta de super-homens por meio de processos psicológicos, divulgado no jornal carioca Correio da Manhã, que fez o médico escolar Maurício de Medeiros, discípulo de George Dumas, na Sorbonne, organizar laboratórios de psicologia no Hospital dos Alienados e a defender a tese do aproveitamento dos "supra-normais", reconhecidos pelos Testes de Terman ou de Stermann (versão americana dos testes de Binet) com o propósito de encontrar os leaders da civilização nacional (Nunes, 1991, p.277-278). Parece que a dimensão estreitamente científica dos testes, esvaziada da dimensão histórica, social e política, permitiu seu uso na legitimação de diferentes propostas. De um modo geral, a conjugação de regras de medida rigidamente expressas com o vazio da dimensão sóciocultural permitiu-lhe uma elasticidade de uso que foi o motivo do seu sucesso junto à intelectualidade nesse momento.
Sob o ritmo dos testes, a Psicologia Educacional fez escola vencendo as resistências iniciais que se opuseram, por exemplo, à sua obrigatoriedade nos currículos do Instituto de Educação do Distrito Federal, onde permaneceu como matéria de estudo facultativo por vários anos (Lourenço Filho, s.d.[b], p.274). O movimento de florescimento dessa área de conhecimento teve duas direções bem marcadas nas primeiras décadas do século: de fora do país para dentro, através das publicações estrangeiras lidas no original ou maciçamente traduzidas, e das conferências de especialistas estrangeiros que visitaram ou se estabeleceram por algum tempo no país, desde a década de 10, provenientes da Itália (Ugo Pizzoli), da Polônia (Waclaw Radecki), da França (Henri Pierón, Etienne Souriau, André Ombredane e Jean Maugué), da Inglaterra (Th. Simon e Léon Walter), da Alemanha (Wolfang Koeler), dos Estados Unidos (C.A. Backer), entre outros; de São Paulo para outros grandes centros urbanos brasileiros.7 Esta expansão produziu frutos concretos, colhidos nessas décadas e nas posteriores, quando a produção da pesquisa brasileira já se afirmara internacionalmente. Período de plena afirmação.

O sucesso da pesquisa brasileira empurrava seus produtores numa circulação intermitente dentro e fora do país, consagrando um campo de atuação específico do profissional de educação. Gradativamente, a Psicologia Educacional se afastava de uma de suas marcas iniciais mais fortes, o campo das doenças mentais, e passava a trabalhar um vasto universo do comportamento humano priorizando a infância e a adolescência como objetos de investigação a partir de ampla e variada temática: raciocínio infantil; grafismo; memória; cinética; tipos intelectuais e associações de idéias; desenvolvimento mental; aprendizagem da leitura e da escrita; influência de leituras e cinema sobre a aprendizagem; inteligência geral e biótipo; inteligência, meio social e solidariedade; inteligência e vocabulário; orientação e seleção profissional; homogeneização de classes escolares; personalidade e tipos de crianças; aprendizagem e testemunho; motricidade e fadiga; julgamento moral e social, entre outros aspectos.

Ao assumir este recorte no âmbito do exame comportamental, a Psicologia Educacional se afastava da Psiquiatria e abria um campo de estudos próprio, consolidava também as atividades de laboratório no ensino de formação de professores. A presença destes laboratórios dentro dos cursos normais mostrava que o modelo da reformulação desses cursos não vinha das faculdades existentes, mas de instituições que lhes eram concorrentes.8 Neste deslocamento, a tentativa de empreender a acumulação de um conhecimento empírico sobre a população brasileira (o que os brasileiros comiam, como moravam, suas preferências sexuais, sua conduta social, seu temperamento e caráter), que era o objetivo dos médicos, legistas e dos policiais, enfatizou o caráter preventivo de conhecimento, controle e correção do comportamento adulto na criança. Sob o patrocínio da ciência, as Escolas Normais foram transformadas em estabelecimentos de reflexão sobre os costumes da sociedade que direta ou indiretamente se expressavam dentro dos muros escolares.

As exigências científicas de conhecimento da criança e de suas famílias nas áreas urbanas foram enfrentadas pelas Escolas Normais (ou Institutos de Educação) que abriram ou não espaço para certas disciplinas, ao sabor de pressões da crítica pública ao movimento de secularização que a ciência trazia. Foram estes avanços que introduziram os laboratórios e a observação psicológica, sociológica e antropológica dentro das escolas. Essas pressões não eram apenas sintomas de resistência ao avanço da produção de conhecimento e de uma mentalidade mais secular. Em alguns momentos, e a partir de certos agentes, elas sinalizaram polêmicas do próprio movimento do campo científico e pedagógico.

Apesar da avalanche "testologizante" que grassou nas escolas normais e primárias brasileiras e do sucesso dos testes psicológicos, o consenso não foi unânime. A crítica existiu e partiu não só dos professores das escolas em que os testes eram aplicados, mas também de médicos educadores que opunham aos famosos instrumentos de medida psicológica, defendidos até por juristas como Pontes de Miranda, os estudos de caso. Isto é, a análise da significação simbólica das atitudes desviantes das crianças observadas na escola e remetidas a causas familiares.9

As críticas aos testes formuladas por Arthur Ramos, que vai chefiar o serviço de Ortofrenia e Higiene Mental do Instituto de Pesquisas Educacionais do Departamento de Educação do Distrito Federal, na reforma de instrução pública liderada por Anísio Teixeira (1931-1935) conviveram com a fúria "testologizante" presente na concepção de Lourenço Filho e em algumas escolas primárias públicas da rede escolar carioca na mesma administração. Essas críticas sinalizavam mais do que simples querela interpretativa. Sinalizavam o início de uma ruptura entre os médicos, que privilegiavam como seu objeto de análise, o desvio e os desviantes, desenvolvendo o tema da
identificação, e os antropólogos, cujo interesse pelos desviantes e pelas minorias levaram-nos, gradativamente, a renegar o determinismo biológico e desenvolver o tema da identidade.10

Arthur Ramos, médico de formação, aproximou-se da ala antropológica, e Lourenço Filho, educador e advogado com uma incursão interrompida pela medicina, identificou-se com a ala médica. Enquanto os médicos-antropólogos iriam retomar a distinção proposta por Boas entre raça e cultura, os educadores médicos, em colaboração com médicos e juristas, deixavam de lado a questão da autocompreensão auto-atribuída dos grupos, segmentos ou classes, como salienta Mariza Correa (1982, p.170).

Nesse processo de ruptura, alguns médicos tornaram-se criminólogos ou inspiraram iniciativas de porte inédito neste âmbito. Afrânio Peixoto , "discípulo dileto" de Nina Rodrigues, Diretor de Instrução Pública do Distrito Federal em 1916, ao estabelecer e insistir na relação entre doença e crime abriu caminho para a radicalização da prática de Leonídio Ribeiro, médico psiquiatra e seu discípulo mais ativo, que nas suas obras sintetizou muitas outras tomadas de posição sobre o crime, incluindo as de educadores, através da noção de prevenção11

Médicos, como Afrânio Peixoto, criminalistas, como Leonídio Ribeiro e educadores, como Lourenço Filho, acabaram promovendo diretamente, no caso dos primeiros, ou endossando, no caso do último, a criação de instituições que segregaram crianças e produziram, nesse processo, a figura do menor abandonado como sinônimo de delinqüente potencial. No entanto, a façanha maior que irmanou particularmente médicos e criminólogos (e neste sentido, os sujeitos citados sinalizam o grupo profissional a que pertencem) foi a identificação civil obrigatória, através das impressões digitais (Lourenço Filho, s.d.[b], p.273). Todos partilhavam da concepção de que biologia era destino. Na ruptura entre a Medicina e a Antropologia, a ala médica teve, para a sociedade brasileira como um todo e para os profissionais da educação, maior influência do que a ala antropológica. O determinismo biológico acabou sendo mais forte do que o "psicanalitismo".

Da exposição que fiz até o momento, incentivada pela necessidade de explorar um pouco mais o segundo ponto de reflexão que já mencionei, retiro um terceiro aspecto a ser considerado nos estudos comparados sobre a Escola Nova em nossos países e com ele encerro minha fala.

3. O foco no aspecto formativo dos educadores parece exigir o mapeamento das obras decisivas a que tiveram acesso, das obras fundamentais que produziram e das redes de influência que teceram e permitiram a apropriação de certas concepções de Escola Nova, assim como a produção de uma leitura própria, que se converteu em modelo de compreensão para os demais educadores e de representação do que essa nova escola deveria ser ou não. De outro lado, esse esforço permitiria também detectar, por contraste, as contribuições não hegemônicas dentro da mesma rede e que foram silenciadas ou secundarizadas na disputa das idéias e dos espaços de atuação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, Sérgio. Os aprendizes do poder: o bacharelismo liberal na política brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 266p.
CORREA, Mariza. As ilusões da liberdade: a Escola Nina Rodrigues e a Antropologia no Brasil. São Paulo, 1982. 379p. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas e sinais: morfologia e história. São Paulo: Cia. das Letras, 1989. 281p.
HERSCHMANN, Micael M. Os poetas do progresso: o discurso médico e a construção do Brasil Moderno. Rio de Janeiro, 1992. 26p. (Mimeo.)
LOURENÇO FILHO, M.B. Juazeiro do Padre Cícero. 3.ed. São Paulo: Melhoramentos, s.d.[a] 217p.
_____________________. Testes ABC para verificação da maturidade necessária à aprendizagem da leitura e da escrita. São Paulo: Melhoramentos, 1933. 192p.
______________________. A psicologia no Brasil. In: AZEVEDO, Fernando de. As ciências no Brasil. São Paulo: Melhoramentos, s.d. v.2, p.263-96.
MOTA, Joaquim Antonio Cesar et al. Júlio Afrânio Peixoto (1876-1947): ensaio biográfico. Belo Horizonte, 1992. 52p. (Mimeo.)
NUNES, Clarice. Anísio Teixeira: a poesia da ação. Rio de Janeiro, 1991. Tese (Doutorado) – Departamento de Educação da PUC/RJ.
PENTEADO JR., Onofre. Os testes ABC como meio de seleção de classes. Revista de Educação, São Paulo, n.1, p.185-93, mar. 1933.
PRONKO, Marcela A. El problema del abordage comparativo en la história de la educación. Niterói: UFF, 1995. 23p. (Mimeo.)
SILVA, Hélio et al. Os pioneiros da educação brasileira: atualidade de Lourenço Filho. Rio de Janeiro: FGV/IESAE, 1983. 80p. (Relatório de pesquisa)

Abstract:
This article intends to discuss the possibilities and limits of a Comparative Educational Historiography construction. Seeking for an example, points the debate on educators biographies as a field that can probably permits comparative studies and so for explores Lourenço Filho biography.

Keywords: New School; History of education; Comparative historiography

 (Recebido para publicação em 7 de julho1997 e liberado em 3 de abril de 1998.)

* Professora Doutora, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense.

1 Uso para introduzir minha exposição a excelente reflexão de Marcela A Pronko (1995).

2 Ver especialmente as conclusões, p.235-246.

3 Segundo Lourenço Filho (s.d.[b], p.275-276), Antonio Sampaio Dória, bacharel em Direito, foi o primeiro na bibliografia pedagógica brasileira a mencionar os testes mentais, embora não os houvesse praticado sistematicamente. Considerando-se seu discípulo é que faz, na trajetória histórica que constrói sobre a Psicologia no Brasil, menção à sua formação médica interrompida.

4 O livro recebeu críticas elogiosas no plano nacional e internacional. Foi calorosamente saudado por Rocha Pombo, Pandiá Calógeras, Afonso Taunay, Gustavo Barroso, Linn Smith, Vera Kelsey, Ray Josephs, Roger Bastide, Donald Pierson e Earl W. Thomas, entre outros. Ver prefácio da Editora Melhoramentos em Lourenço Filho (s.d.[a], p.11). Hélio Silva (1983) faz uma análise interessante da obra com a qual concordamos em muitos pontos assumidos neste texto.

5 O modelo indiciário foi baseado na semiótica, cujas raízes eram muito antigas, pois o patrimônio cognoscitivo nele presente já podia ser encontrado no homem caçador e seu modelo venatório de conhecimento do mundo. As analogias entre este modelo e o dos textos divinatórios das antigas civilizações também são efetivos, segundo Ginzburg. Além disso, há um empréstimo dos termos aí usados na léxico jurídico e na semiótica médica. Estivemos atentos em nossa leitura para as aplica-ções do modelo indicitário como manifestação da semiótica médica (Ginzburg, 1989, p.143-180).

6 Sobre o papel de Afrânio Peixoto como intelectual médico e literato, ver Herschmann (1992) e Mota (1992).

7 Mesmo que outros trabalho no plano da Psicologia Educacional tenham sido produzidos nas cidades brasileiras ao mesmo tempo ou tenham até, em casos isolados, precedido o trabalho paulista, embora com publicação anterior (parece ser o caso de Isaías Alves, na Bahia), pela amplitude, consistência e força de irradiação é inegável a presença e a hegemonia de São Paulo e, obviamente, de Lourenço Filho no grupo gestor deste impulso da área.

8 Como demonstra Mariza Correa, na segunda metade do século XIX, o laboratório passou a ter importância crescente na formação do especialista, antecipando-se nesse aspecto às próprias Faculdades de Medicina. Segundo a autora, os trabalhos sobre moléstias tropicais da "escola tropicalista baiana" (Patterson, Wucherer e Silva Lima), as investigações da "trindade oftalmológica nacional" (Moura Brasil, Gama Lobo e Hilário Gouveia) e a pesquisa experimental de Manguinhos foram realizadas em laboratórios, obtendo notoriedade. Em contrapartida ao ensino teórico das faculdades, os laboratórios desenvolviam a pesquisa tendo influído, apesar das resistências, para a renovação das Faculdades de Medicina. O histórico da Psicologia no Brasil, elaborado por Lourenço Filho, oferece uma idéia detalhada da presença dos laboratórios no desenvolvimento da Psicologia Educacional (Correa, 1982, p.70-71 e Lourenço Filho, s.d.[b], p.268-280).

9 A crítica dos professores ao enfrentar problemas de compreensão e de aplicação dos testes aparece em nossa tese de doutoramento (1991). Especialmente o item "4.1.1. Uma questão de classe", p.251-289. Sobre esta critica relativa às experiências paulistas, ver Penteado (1933).

10 Sobre a ruptura entre a Medicina e a Antropologia, ver Correa (1982, p.170).

11 Afrânio Peixoto introduz o conceito de medicamentação do crime na sua tese inaugural intitulada "Epilepsia e crime", apresentada à Faculdade de Medicina da Bahia, em 1897. Nela, afirma que o epilético seria predisposto ao crime, sendo esse uma continuidade lógica da sua moléstia, razão pela qual sugeria considerar o epilético um ser criminalmente irresponsável que deveria ser internado em colônias penais para a proteção da sociedade. Leonídio Ribeiro endossa a postura de Afrânio e a radicaliza. Em 1936 ele cria, no Rio de Janeiro, o Laboratório de Biologia Infantil, com o fim de analisar as causas físicas e mentais da criminalidade juvenil e, ao mesmo tempo, apurar as técnicas do tratamento de menores delinqüentes (Mota, 1992, p.10-11 e Lourenço Filho, s.d.[b], p.273).     © 2006  Faculdade de Educação – USP
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Lançamentos de Docentes (EDUCAÇÃO) 

Ao mestre, com justiça          

    A maioria das reflexões sobre a educação nacional baseada na substituição de um Brasil "velho" por um Brasil "moderno" tem seu ponto de partida no pensamento do educador Manoel Bergström Lourenço Filho (1897-1970). A coleção que leva o seu nome lança, em 2001, quatro volumes, todos dedicados a preservar a obra e a memória do autor de obras já clássicas, como A Pedagogia de Rui Barbosa. Merece destaque o primeiro volume. Organizado pelo historiador Carlos Monarcha, da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP, câmpus de Marília, e pelo filho do homenageado, Ruy Lourenço Filho, recupera a biografia e as publicações do educador, visto sob suas diversas facetas – professor primário, administrador escolar e escritor, com um total de 771 referências, entre livros, artigos e outras publicações. A importância dos prefaciadores – Alberto Venâncio Filho, da Academia Brasileira de Letras, no primeiro volume, e o crítico literário Wilson Martins, no segundo – dá uma idéia do cuidado na preparação dos livros.
    Por Lourenço Filho: uma bibliografia – Organizadores: Carlos Monarcha e Ruy Lourenço Filho, 314 páginas; A Pedagogia de Rui Barbosa – Manoel Bergström Lourenço Filho, 164 páginas; Lourenço Filho e a Organização da Psicologia Aplicada à Educação – Carlos Monarcha, 48 páginas; A Formação de professores: da Escola Normal à Escola de Educação – Manoel Bergström Lourenço Filho, 126 páginas. Publicação do Instituto de Pesquisas Educacionais. Distribuição gratuita a universidades brasileiras e instituições culturais. Informações: Esplanada dos Ministérios, Bloco L, Anexo I, 4º andar, sala 416, CEP 70047-900.


Lourenço Filho
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Lourenço Filho foi um educador brasileiro conhecido sobretudo por sua participação no movimento dos pioneiros da Escola Nova. Foi duramente criticado por ter colaborado com o Estado Novo de Getúlio. Todavia, sua contribuição para a educação brasileira mereceria ser melhor estudada. Sua obra nos revela diversas facetas do intelectual educador, extremamente ativo e preocupado com a escola em seu contexto social e nas atividades de sala de aula.
Índice [esconder]
1 Vida e Obra
2 Pensamento do autor e sua importância
3 Concepção de Educação
3.1 Algumas obras de sua vasta produção
3.2 Referências

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Vida e Obra

Manoel Bergström Lourenço Filho, nascido em Porto Ferreira, interior paulista, a 10 de março de 1897, é uma das figuras eminentes da Escola Nova brasileira. Sua formação foi marcada pela influência do pai, o português Manoel Lourenço Filho, comerciante criativo e empreendedor ávido, casado com a sueca Ida Christina Bergström Lourenço. Desde menino, em contato com vasta literatura, tornou-se um leitor compulsivo. Nas suas próprias palavras: lia com "bulimia e indiscriminação" .

Iniciou a vida escolar na vizinha Santa Rita do Passa Quatro. Prosseguiu em Campinas, depois em Pirassununga e, finalmente, na capital, onde diplomou-se na Escola Normal Secundária, em 1917. Matriculou-se na Faculdade de Medicina para estudar psiquiatria mas abandona após dois anos. Em 1919, ingressa na Faculdade de Direito de São Paulo, vindo a bacharelar-se em 1929, depois de longa trajetória interrompida por várias atividades paralelas que desenvolve, com destaque, no campo educacional.

Sua carreira profissional foi precoce. Pode-se lembrar a premonitória experiência de elaborar um jornal próprio, O Pião, cujo chefe, redator e tipógrafo era ele mesmo, menino de 8 anos ainda. Sua vida evidenciará que esse jornal foi mais do que mero capricho de criança: o "brinquedo" o preparou para exercícios profissionais posteriores. Mais tarde trabalhará no Jornal do Comércio, n’O Estado de S. Paulo e na Revista do Brasil, nesta, ao lado de Monteiro Lobato.

O talento desse educador revelou-se tanto no desempenho discente quanto na atuação docente. Desde o exame de admissão para a Escola Normal Primária de Pirassununga exercitava habilidades docentes ministrando aulas particulares de preparação para os testes admissionais. Também a primeira experiência no ensino público dá-se em sua terra natal, em 1915.

Novo contato com a sala de aula se fará na Escola Normal Primária de São Paulo, na qual leciona diversas disciplinas pedagógicas, em 1920. No ano seguinte é nomeado para a cátedra de Psicologia e Pedagogia da Escola Normal de Piracicaba. Ali funda a Revista de Educação, que recebe seus primeiros artigos. No final desse mesmo ano, casa-se com Aida de Carvalho, que conhecera em Pirassununga, quando ambos eram normalistas.

É possível detectar nesse momento da vida de Lourenço a fusão harmônica entre o leitor, o professor, o escritor, o pesquisador e o administrador, potenciais que começavam a demandar espaço.

Em 1922, a convite do governo cearense, assume o cargo de Diretor da Instrução Pública e leciona na Escola Normal de Fortaleza. As reformas por ele empreendidas no Ceará repercutem no país e podem ser entendidas como germe dos conhecidos movimentos nacionais de renovação pedagógica das primeiras décadas do século.

De volta ao Estado natal, leciona na Escola Normal de Piracicaba durante o ano de 1924. Em seguida, assume a vaga de Psicologia e Pedagogia da Escola Normal de São Paulo, função que ocupa por seis anos, fervilhantes de pródiga produção, de muitas publicações, inclusive traduções. A influência da Psicologia Experimental é evidente em sua obra, sobretudo nesse momento.

Sua participação política também merece destaque: presente nas Conferências Nacionais de Educação de 1927 e 1928, respectivamente em Curitiba e Belo Horizonte, apresenta suas idéias quanto ao ensino primário e à liberdade dos programas de ensino. Se não autor, é certamente um dos atores mais importantes do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932.

A vasta obra de Lourenço Filho, entretanto, não pode ser vinculada, de modo simplista, apenas à temática do manifesto escolanovista. Mais do que signatário do Manifesto, foi um educador sedento do novo, que bebia nas fontes do novíssimo, das últimas novidades pedagógicas do cenário internacional. Sua preocupação, de fato, voltava-se também para o fazer pedagógico.

A realidade educacional brasileira é terreno carente mas fértil para contribuições. A preocupação com a educação movia Lourenço Filho. Suas experiências, as viagens pelo Brasil e ao exterior, sua ampla cultura lhe possibilitaram escrever em áreas como Geografia e História do Brasil, Psicologia (testes e medidas na educação, maturação humana), Estatística e Sociologia.

No campo da Educação, sua contribuição abrange temas como educação pré-primária, alfabetização infantil e de adultos, ensino secundário, ensino técnico rural, universidade, didática, metodologia de ensino, administração escolar, avaliação educacional, orientação educacional, formação de professores, educação física e literatura infanto-juvenil – textos espalhados por numerosos livros, revistas, jornais, cartilhas, conferências, apresentações e prefácios. Há publicação de alguns de seus escritos em inglês, francês e espanhol.

A formação profissional e os profundos vínculos dessa com sua produção e atuação, conferem a Lourenço Filho o perfil de intelectual educador. Apesar de ter exercido cargos na administração pública federal – como diretor de gabinete de Francisco Campos (1931), como diretor geral do Departamento Nacional de Educação (nomeado por Gustavo Capanema, em 1937) e como diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (1938-46) –, foi sobretudo um professor e um estudioso de assuntos didático-pedagógicos.

Viveu os últimos anos no Rio e, vítima de colapso cardíaco, faleceu em 3 de agosto de 1970, aos 73 anos.
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Pensamento do autor e sua importância

A impressão que se tem, à medida que se adentra o universo da produção desse educador é de que ele não se esconde à sombra de nomes como Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira, contemporâneos seus já objeto de inúmeros estudos. Poderíamos até mesmo conjecturar se seu envolvimento com o governo Vargas não constituiu e constitui, de certa forma, pretexto para obscurecimento da sua figura, num patrulhamento ideológico-político despercebido, como se aceitar cargos num governo ditatorial como foi o de Vargas implicasse necessariamente deixar de ter um posicionamento político crítico.

Perguntamo-nos aqui se os serviços que prestou naquele período não constituíram meio para realização, no campo educacional, das reformas que idealizara. Lourenço acreditava que a era getulista fosse realmente de modernização. Ou seja, o governo brasileiro daquele momento lhe pareceu oportuno para reformar a educação.

Também é criticado pelo caráter tecnicista de suas propostas educacionais. Talvez uma investigação aprofundada sobre esse educador pudesse guindá-lo da posição secundária, em que costumeiramente parece ser confinado, para um plano de maior destaque.

De fato, a obra de Lourenço Filho sobre a Escola Nova é emblemática. Em 1926, por exemplo, em resposta ao inquérito acerca do ensino paulista promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo, apresenta com extraordinária clareza e precisão as características do movimento renovador: "A escola tradicional não serve o povo, e não o serve porque está montada para uma concepção social já vencida, senão morta de todo... A cultura, bem ou mal, vinha servindo os indivíduos que se destinavam às carreiras liberais, mas nunca às profissões normais de produção econômica".

Para ele, o papel da escola, principalmente o da escola primária, era o de adaptar os futuros cidadãos, material e moralmente, às necessidades vindouras. Busca integrar a criança na sociedade e explica a necessidade da educação escolar pública e obrigatória, pois a escola deve preparar para a vida real, pela própria vida.


Esta concepção nos dá margem para confirmar o entendimento do autor, naquele momento, da profunda articulação existente entre a escola e a vida social. Assim, uma escola Moderna só seria a "escola do trabalho". Lourenço Filho tinha claro que a elitização e o intelectualismo da educação brasileira não atendiam às necessidades das classes populares, antes as privavam de participar no esquema produtivo.

Em seu livro mais famoso Introdução ao estudo da Escola Nova, (São Paulo: Melhoramentos, 1978, 271 p.) procurou dar caracterização nacional à temática, embora na Introdução da obra muito pouco fale do Brasil, informando, majoritariamente, sobre o movimento no exterior.
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Concepção de Educação

Para ele, "ensinar" é a arte de transmitir conhecimentos e técnicas, ou seja, o ensino é o processo de inculcação de noções e idéias e, esse papel historicamente coube à escola. Já em relação à Educação, esta, deveria ser integral, oferecer mais que a instrução, pois cabe a ela integrar os indivíduos. O caráter educativo pleno da escola estaria no oferecerimento de condições e oportunidades para que os alunos organizassem a sua conduta para a saúde, a família, o trabalho, a pátria, a recreação e a religião.

Na obra acima citada, Introdução ao estudo da Escola Nova ele coloca:


"O verdadeiro papel da escola primária é o de adaptar os futuros cidadãos, material e moralmente, às necessidades sociais presentes e, tanto quanto seja possível, às necessidades vindouras, desde que possam ser previstas com segurança. Essa integração da criança na sociedade resume toda a função da escola gratuita e obrigatória, e explica, por si só, a necessidade da educação como função pública. Por isso mesmo, o tirocínio escolar não pode ser mais a simples aquisição de fórmulas verbais e pequenas habilidades para serem demonstradas por ocasião dos exames. A escola deve preparar para a vida real, pela própria vida. A mera repetição convencional de palavras tende a desaparecer, como se viu na nova concepção da ‘escola do trabalho’. Tudo quanto for aceito no programa escolar precisa ser realmente prático, capaz de influir sobre a existência social no sentido do aperfeiçoamento do homem. Ler, escrever e contar são simples meios; as bases da formação do caráter, a sua finalidade permanente e inflexível. Do ponto de vista formal, isso significa a criação, no indivíduo, de hábitos e conhecimentos que influam diretamente no controle de tendências prejudiciais, que não podem ou não devem ser sufocadas de todo pelo automatismo psíquico possível na infância. E como conseqüência, nos grandes meios urbanos, à escola cabe, hoje, iniludivelmente, facilitar a orientação e seleção profissional, pelo estudo das aptidões individuais da criança, conhecimento e esclarecimento do desejo dos pais, tradição e possibilidades da família. Esse aspecto é inteiramente desconhecido em nossas escolas."
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Algumas obras de sua vasta produção
Educação comparada. São Paulo: Melhoramentos, 1961, 294 p.
Estatística e educação. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, 1940, 23 p.
Introdução ao estudo da Escola Nova. São Paulo: Melhoramentos, 1978, 271 p.
A criança na Literatura Brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1948.
Introdução ao estudo da Escola Nova. São Paulo: Melhoramentos, 1978, 271 p.
Organização e administração escolar: Um curso básico. São Paulo: Melhoramentos, 1963, 288 p.
Psicologia educacional. São Paulo: Melhoramentos.
Psicologia de ontem e de hoje. São Paulo: Melhoramentos.
Tendências da educação brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1940, 164 p.
Testes ABC para verificação da maturidade necessária à aprendizagem da leitura e escrita. São Paulo: Melhoramentos, 1969, 200 p. (inclui material para aplicação dos testes).
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Referências

D’ÁVILA, A. O Mestre das Américas: Lourenço Filho (1897-1970). S. Paulo: C. Estudos Roberto Mange, mimeo, 1970, 17 p.

LOURENÇO FILHO, M.B. "O Porto de meu tempo." Revista comemorativa do cinqüentenário de Porto Ferreira, Porto Ferreira, 1946, p. 21-23.

LOURENÇO FILHO, M.B. RBEP, vol. I, ago. 1944, n. 2, p. 219-225. "Modalidades da educação geral."

Encarte, Outubro-Novembro/1999 - Publicação do Programa de Pós-Graduação em Educação – CECH – UFSCar

Ademir Valdir dos Santos, professor, doutorando em Fundamentos da Educação no PPGE/UFSCar

Leila Leane Lopes Leal, professora, doutoranda em Metodologia de Ensino no PPGE/UFSCar. Orientação e revisão: Prof. Dr. Paolo Nosella.


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